Beatles ou cebola?

Falei assim, sem muita pretensão: “o azeite é uma das dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Só queria dar uma floreada na frase, contornar o monótono “adoro azeite”, quase tão chato como um “nossa, esfriou, né” em papinho de elevador. Acontece que a Dani, namorada do meu irmão, quis saber: “quais são as outras nove?”

Eu não tinha a menor idéia. Era sábado e estávamos no Bar da Dida: eu, Pedro (meu irmão), Chico, Paula, Mauro e a já citada Daniela. Começamos então, todos juntos, a fazer a lista.

No começo a coisa foi fácil – “amor”, “sexo”, “amizade”… – mas lá pelo quinto item começaram as divergências. Chico sugeriu “Beatles”. Daniela preferia “samba”. Mauro indignou-se: “a gente vai pôr música antes da comida? E a cebola? Eu não vivo sem cebola”. “Ah, eu troco cebola por Blackbird, na boa!”, rebateu Chico. Uma certa animosidade surgiu, entre a turma dos tímpanos e a das papilas gustativas. Ponhamos os dois, sugeri.

Recapitulei: azeite, amor, sexo, amizade, Beatles – “ou samba!” -, lembrou Dani –, sim, ou samba, e cebola. Achei ter ouvido, num murmúrio, “prefiro alho”, mas resolvi passar batido.

Sugeri mar. Não lembro quem falou que “era mais cachoeira” – talvez o mesmo do alho. Sei é que foi espancado por argumentos os mais diversos, da poesia de Fernando Pessoa ao sul da Bahia, tendo finalmente que dobrar-se à supremacia da água salgada diante do argumento de que era o “berço da vida”. Consenso.

Aproveitando um silêncio, meu irmão Pedro, que até então estava quieto, tentou emplacar “futebol”. Daniela ficou brava. “Só pensa em futebol, né?”. De cara amarrada, saiu-se com “eu prefiro lua”. Climão. Foi aí que chegou o Paulinho e, ao ser colocado à par da discussão, veio com: “dá pra trocar o azeite por manteiga?”. Perdi totalmente a esperança de fecharmos a lista.

Passamos o resto da noite em acalorados embates entre “camarão” ou “cafuné”, “dormir” ou “Cartola”, “festa” ou “Amarcord” e, de tempos em tempos, “Beatles” ou “cebola”. Voltei para casa mais cético sobre o futuro da humanidade. Se cinco amigos numa mesa de bar não conseguem chegar a uma lista dos top ten da vida na Terra, o que dizer sobre o Oriente Médio?

(“Ou a violência no Rio?”, diz o leitor de óculos. “Sou mais aquecimento global”, pensa a mocinha de verde. “Por que não o aborto”, sugere a senhora engajada, sentada no banco da praça…).

Antonio Prata

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