Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu (3)

Marina e o criacionismo

Em entrevista a Marta Salomon, na Folha de hoje, Marina Silva responde a uma questão sobre criacionismo — aquela corrente de pensamento cristã que nega a evolução das espécies e assume os textos bíblicos sobre a origem do homem e do universo como verdades literais.

FOLHA – Antes de mudar de partido, a sra. mudou de religião, de católica para evangélica. No ano passado, equiparou a teoria da evolução de Charles Darwin ao criacionismo, que atribui a origem da vida a Deus. Entre fé e ciência, a sra. fica com a fé?

MARINA SILVA – Houve um completo mal-entendido. Fui dar palestra em uma universidade adventista, que é uma faculdade confessional. A legislação brasileira permite as escolas e as faculdades confessionais, que têm o direito de fazer a abordagem do ensino a partir da perspectiva religiosa.

Um jovem me perguntou o que eu achava de as escolas adventistas ensinarem o criacionismo. Respondi que, desde que ensine também a teoria da evolução, não vejo problema. A partir daí, as pessoas começaram a dizer que eu estava defendendo o criacionismo. Sou professora, nunca defendi essa tese e nem me considero criacionista. Porque o criacionismo é uma tentativa de explicação como se fosse científica para responder a questão da criação em oposição ao evolucionismo. Apenas acredito em Deus, é uma questão de fé. Nunca tive dificuldade em respeitar e me relacionar com os ateus, com pessoas que professam outras crenças ou outra forma de pensar diferente da minha.

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O debate sobre criacionismo reside aí. Determinadas escolas religiosas querem lhe dar a condição de categoria científica, permitindo que seja ensinado em pé de igualdade com as teorias evolucionistas, desenvolvidas por Charles Darwin, e que são uma das bases do conhecimento moderno. O movimento criacionista não chega ao ponto de querer excluir o evolucionismo das escolas. Quer que as idéias religiosas passem a ser admitidas como uma visão alternativa e legítima ao pensamento científico.

Ou seja: da mesma forma que os estudantes tem aulas sobre biologia, astronomia e assim por diante, passariam ter lições e fazer provas sobre a criação do universo em sete dias, a costela de Adão, a arca de Noé e outros ensinamentos. Eu acho que todos tem direito a uma religião ou a não ter nenhuma. Mas uma visão laica de ensino, um dos primeiros valores republicanos, impede que uma religião — qualquer que seja — possa ensinada como uma espécie de matéria optativa em relação à Ciência.

Ao dizer que aceita o ensino do criacionismo “desde que se aceite também a teoria da evolução”, Marina Silva coloca-se numa posição contrária aos valores de uma escola republicana.

Paulo Moreira Leite, no site da Época.
dica do Tom Fernandes

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