A vida (não) tem liquid paper

– Mas o moleque não para com a choradeira. Parece que o mundo vai acabar pra ele…
– O que aconteceu não tem nenhuma importância. É besteira de criança.
– Vou falar com a dona Bezinha, a diretora da escola. Ela vai nos ajudar a resolver isso.
– A professora dele está de licença. Quem aplicou as provas foi a substituta. Depois ligo para a casa dela.

Ser chamado para a diretoria era o pior pesadelo de qualquer aluno. Com um misto de medo e de ansiedade, o menino entrou meio desconfiado na sala decorada com móveis que poderiam ser facilmente comercializados em antiquários.

– Só um minutinho que vou localizar o arquivo da classe dele.
– Isso é muito constrangedor, mas a ideia da senhora deve solucionar o problema.
– Também tenho filhos e sei o quanto eles importunam quando querem algo.
– Já expliquei que isso acontece, mas ele não aceita o fato.

De soslaio, o guri observa que as pernas obesas da diretora lembram o mapa hidrográfico da Região Norte. A diferença é que cada variz parece o próprio Amazonas e, ao contrário do que mostra o Atlas, várias pororocas sobrassaem na pele alva.

Ela retorna com um pacote de papel pardo encimado com os dizeres “Terceira série A” escrito à mão. Revira as folhas impressas no mimeógrafo até achar o detonador daquele berreiro todo.

– Aqui está a sua prova. Vou apagar com cuidado as duas respostas que você errou.
– Veja se você não vai se enganar de novo, hein! – brincou o pai, instantaneamente fuzilado pelos olhos rútilos do garoto.
– Prontinho. Amanhã pedirei à secretária para alterar o seu 9,0 para 10,0 e você vai passar de ano com nota máxima, como sempre aconteceu. Parabéns!

Do alto dos seus 9 anos, o menino saiu da sala da “dona Cafezinha” (como a molecada a chamava), com pelo menos duas convições:

– quanto maior o problema, chorar mais alto sempre resolve;
– a vida tem uma tecla rewind. Basta retroceder, apagar e escrever por cima.

***

Como acontece nos momentos derradeiros das novelas, o tempo deu um salto de vários anos. O cenário que levou à puerilidade da crise de outrora hoje é pintado com matizes ainda mais fortes. Ainda hoje, para muita gente o segundo lugar no pódio é o mesmo que a derrota, como atestam os discípulos de Rubinho. Permanecer na primeira posição requer energia de que somente poucos dispõem.

Após inúmeras porradas, o cara da “nota 10 fake” amadureceu um bocadim e mantém permanentemente acionado o botão de “fuck you” para as idealizações que tentam lhe pespegar. Em vez da toxina botulínica que corrige mas imobiliza, optou pela liberdade de falhar livremente, para gáudio dos caçadores de erros. Ao fazer piadas sobre a própria sorte intenta estar “acima do seu destino”, como disse Freud.

Liberal para os conservadores, bundão para os liberais, exaspera quem tenta encaixotá-lo em quaisquer tipos de rótulo. Improvisa quando esperam que siga o roteiro e usa o tom (ébrio) solene quando a descontração é a (água) tônica. “Irresponsabilidade de Peter Pan retardado”, vociferam alguns, enquanto ele voa para “a segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer”. Na sua Neverland particular, os crocodilos permanecem em dieta.

“Falta-lhe solidão. Tem de sair de picareta, ceifando, demolindo as admirações que hão de corrompê-lo fatalmente.” Nelson Rodrigues acertou no diagnóstico e na prescrição. Graças a Deus, a personagem destas (in)confidências descobriu a tempo que na cela das expectativas alheias, a fechadura fica do lado de dentro. E ninguém há de colocar novamente a mão nas chaves. Nunca mais.

novo texto meu no Blog das 30 pessoas.

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