A alma do instante

“A medida de uma chicotada.” “Um relâmpago.” Ou ainda, “A alma do instante”. Estas são algumas das definições que Fabrício Carpinejar dá ao microblog Twitter, espaço no qual o poeta gaúcho tem transitado com bastante frequência e naturalidade nos últimos meses. Tanto que, anunciou, vai publicar um livro pela Bertrand Brasil com uma compilação dos seus escritos postados recentemente no microblog. “O Twitter é uma maravilha para um poeta. Cento e quarenta caracteres é perfeito para forçar minha respiração”, diz Carpinejar, a respeito do exercício de síntese a que leva o curto espaço disponível para cada entrada no site.

O livro é o primeiro da história do mercado editorial a trazer editado conteúdo do Twitter. Vai ter como título o próprio endereço do espaço eletrônico – “www.twitter.com/carpinejar/” -, terá sua orelha assinada por dois seguidores do microblog e será lançado na mesma velocidade instantânea que caracteriza a informação que circula no Twitter. “É pra agora! Em outubro, no máximo”, revela o poeta, autor de “As Solas do Sol”. “É pra entrar na sinceridade biológica do Twitter.”

Ora definido como “sistema telegráfico da web 2.0”, o Twitter faz aos seus usuários uma pergunta básica: “O que você está fazendo agora?” Mas se torna muitas vezes ou um espaço de insignificâncias e clichês ou então uma forma de link redundante, usado apenas para divulgar informações existentes em outros websites ou blogs.

Fabrício Carpinejar é um caso de usuário que foge dessas duas vertentes. Utiliza o Twitter como espaço único, para o qual faz uma escrita particular dentro de sua produção, onde se inclui poesia e crônica. Leitor “apaixonado” de aforismos, ele nunca havia escrito nessa forma, até que as delimitações do microblog o levaram a tal exercício. São frases concisas como “Vejo gente que se esforça para ficar alegre, eu tenho que me esforçar para ficar triste.” Ou, “Chorar não significa que o livro é bom. Já chorei diante de tanto filme B.”

“O Twitter acaba sendo um espaço de inexistência, de ausência, porque as pessoas acabam chamando para um link, para uma outra coisa. Percebi também que havia uma tendência de se dizer o que estava fazendo. Mas intimidade é saber o que não se está fazendo”, analisa irônico Carpinejar, argumentando que prefere ver o Twitter como “uma trincheira contra lugares-comuns e contra a obviedade”. “Como é bonito pisar e humilhar um clichê. O escritor deve ser o recursos humanos dos clichês, despedi-los, todos por justa causa, por uso indevido da língua portuguesa”, brinca, sério, o poeta.

Carpinejar vê nos aforismos algo do gênero lírico e também um tipo de escrita que se casa bem com o Twitter. “É aforismo, mas tem o pensamento poético, aquela iluminação. Não é poema, mas algumas vezes são esfacelamentos descritivos. O deslumbrante do processo é o improviso – estou no trânsito, bate o pensamento e, ‘pá’, ponho lá, pelo celular. São coisas simples – hoje acordei com dor de cabeça. Então, ao invés de dizer “Eu estou com dor de cabeça”, eu digo: “A elegância, o carisma e o bom humor desaparecem com a dor de cabeça. Basta a enxaqueca para aumentar loucamente nosso índice de rejeição”, diz Carpinejar, citando o último aforismo postado no seu Twitter, ontem, às 11h50.

fonte: O Tempo [via blog do Fabrício Carpinejar]

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