A beleza da fé não está em crer, mas em buscar crer

– A “Boca da Verdade” prolonga temas que você persegue desde “O Dia em que Matei Meu Pai”, como “a dor de existir”. Você acha que seria mais fácil suportar essa dor se Deus fosse, para as suas personagens, uma possibilidade?

Deus foi, durante séculos, uma ótima idéia. Resultou em pintura, escultura, arquitetura e filosofia magníficas. Que os mais céticos sucumbam de vez em quando a tais construções, e esqueçam um pouco as suas dores, já é um milagre.

– E quando essas construções não funcionam, o que nos resta?

A superstição do populacho, a histeria dos peregrinos, o mau teatro dos evangélicos, os padres pedófilos, “O Código da Vinci”, o desespero na hora da morte.

– Voltando a Deus: um dos melhores contos de “A Boca da Verdade” é o relato do cardeal que, apesar de ateu, chega a Papa. E você, como narrador, formula a hipótese: não será o cepticismo religioso um produto do conhecimento crescente? Para o cardeal, a resposta é afirmativa. E para você?

Como já disse numa entrevista, a beleza da fé não está em crer, mas em buscar crer. Assim, vejo certa beleza também na tentativa de crer nessa fé laica chamada razão. Quanto ao cardeal do meu conto, ele deixou de acreditar em Deus não por conhecimento crescente, mas por vocação descendente.

– Certo. Mas ele “racionaliza” a sua descrença, procurando justificações mais “intelectuais”. Por isso repito: você acha que a fé é incompatível com a razão?

Se você quiser chamar a singularidade original, aquela que explodiu bilhões de anos atrás, gerando estrelas e planetas, de Deus, não tenho nada a ver com isso. Não nutro desprezo por quem tem fé, inclusive porque prefiro ler Santo Agostinho a Richard Dawkins, cujo ateísmo militante soa aos meus ouvidos como as ladainhas das carolas. Mas penso que um mundo melhor seria aquele em que valesse o inverso da idéia de Ivan Karamazov. Ou seja, porque Deus não existe, nem tudo é permitido. Uma moral que nos irmanasse em nossa insignificância frente ao universo seria mais efetiva do que a do homem criado à imagem e semelhança de Deus.

trecho da entrevista do escritor Mario Sabino a João Pereira Coutinho.
fonte: Folha Online

recomendo a leitura de toda a entrevista.

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