Ato-reflexivo

O espelho é o lugar em que menos nos refletimos.

Se um hamster se levanta ou deita, ficamos eufóricos. Se um gato senta em cima de um livro e finge que está lendo, tratamos de fotografar e divulgar a imagem aos amigos. Se um cavalo chora, somos capazes de trocar a sela das lembranças. Valorizamos os animais quando tomam atitudes humanas. O macaco e o papagaio são os preferidos. Um pelos gestos e outro pela repetição das palavras.

Espantamos os bichos no momento em que desafiam o comportamento planejado. No instante honesto, em que seguem o impulso e escutam o corpo.

Cachorro triste é aquele proibido de ser cachorro. Condenado a passear pela rua com mais adereços do que pêlo. Drapeado de fitas cor de rosa, enlouquecido de camisas havaianas, aluarado de vestidos floreados. Engraçadinho porém inconsistente. Perde a espessura do sangue, a indignação do focinho.

Precisa obedecer para receber comida e ternura. Repete hábitos pelas esmolas de circo. Como pombas e pipocas. Como peixes e pão.

Os donos confundem silêncio com submissão. Esculpem seus bichos com extravagâncias que nem os próprios vestiriam. Pet shop virou transtorno de personalidade. O engraçado é que cachorro não tem personalidade, tem temperamento. Cachorro é intimidado a não latir para estranhos. Latir é visto como uma atitude antipática. Uma agressão. Nada mais é do que proteger a casa, tudo é casa para o cachorro.

Desde quando não atender às expectativas é errado? Antes de um encantador de cães, sentimos falta de bons entendedores.

Domamos para não sofrer trabalho. Para espalhar que controlamos e que sabemos onde podem chegar.

Talvez nos falte o cuidado pelo diferente. Admirar o estranho e não se ver ameaçado pelo anonimato. Forçamos comparações para anular o perigo e a surpresa.

Acho que somente cresci pela imitação. Para me diminuir. Não que seja um macaco ou um papagaio, porém não fujo dos dois, sou estimulado pelos aplausos e vaias.

Na infância, ninguém me parabenizava pelas molecagens. Pela naturalidade das respostas. Pelos desaforos das mãos. Pelas brincadeiras profanas. Por não largar meu tico. Pela falta de jeito.

Mas quando ajudava a mãe a servir os jantares sociais, mas quando usava gravata, mas quando dizia ‘por favor’ e ‘obrigado’, mas quando eu me entristecia como um adulto era subitamente reverenciado. Criança presta quando deixa de ser criança. Calada, então, é uma dádiva.

Os castigos que recebi foram para abafar a curiosidade. Quebrei lâmpadas, vasos e pratos, me defendi das provocações das amexeiras, avancei a linguagem dos terrenos baldios. Não me explicavam o que não podia fazer, não podia fazer e pronto. Ao me desculpar e fingir remorso, reencontrava o sol. O arrependimento é demasiado adulto. Criança não se arrepende, segue o dia.

Devia ter cuspido o espinafre. Devia ter quebrado melhor meus brinquedos. Devia ter lambido a menina de sardas da primeira série. Devia ter esperneado no mercado, puxado os pés dos caixas, derrubado as prateleiras com corridas. Devia ter entrado no jogo sem licença. Hoje meu amor tem pouca crueldade.

Sequer me pertenço para pedir ajuda.

Fabrício Carpinejar
Arte de Picasso

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