Talvez, quando Jesus voltar, ele me faça entender o que aconteceu

De cabeça baixa, calva à mostra, ele vasculha uma imensa bolsa preta de alças compridas. Estende a mão direita, olha nos meus olhos e faz um desafio:

– Me acha nesta foto.

Uma porção de alunos do Brasílio Machado, um colégio público da Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, sorriem em preto e branco. Meninas sentadas à direita, meninos à esquerda. Era 1966. Aponto uns quatro ou cinco adolescentes e não acerto.

– Então eu não sei, Farah.
– Vou dar uma dica, estou na primeira fila.
– É este?
– Não.
– Este?
– Também não.
– Então só sobrou o que está de óculos, mas não pode ser. Você me disse que, naquela época, ainda não usava óculos.
– Deve ser reflexo. Aí eu tinha 17 anos. Só descobri que era míope depois, quando fui tirar a carteira de motorista.

Cabelos lisos caindo pela testa, estilo tigelinha, Farah Jorge Farah era um dos garotos mais belos da classe. Ao guardar na bolsa o retrato daquele menino de semblante tranquilo e feliz, ele ressurge em 2009: um sexagenário solitário, emocionalmente instável, que vive atormentado. No ano passado, Farah foi condenado a 13 anos de prisão por ter matado Maria do Carmo Alves, sua ex-amante, e por ter ocultado o cadáver. Passou quatro anos e quatro meses na cadeia. Obteve, na Justiça, o direito de recorrer em liberdade. Enquanto espera a sentença definitiva, diz que tenta “juntar os cacos”. “Não sou o que as pessoas pensam, minha índole não é ruim”, afirma. “O que fiz foi de maneira irrefletida, impensada. Houve luta. O estresse foi tão grande que minha cabeça balança até hoje, ainda estou confuso. Talvez, quando Jesus voltar, Ele me faça entender o que aconteceu.”

Farah me recebeu diversas vezes nas últimas semanas. Foram 11 horas de entrevistas feitas pessoalmente, mais de duas horas por telefone e uma extensa troca de e-mails. Encontrei um homem de aparência frágil, de boné, com a espinha levemente curvada pelo uso de uma bengala, fala mansa, que se considera vítima da incompreensão social. “O povo quer a minha punição ad aeternum (eternamente)? Quem não comete pecados? Sou um ser humano, seres humanos agem de forma intempestiva”, diz. Farah se esforça para mostrar-se inofensivo, apegado à família e versado em religião e filosofia. Olhares e palavras – ora em tons frágeis, ora irônicos – sugerem que, muitas vezes, ele diz bem menos do que gostaria. Na primeira conversa, logo me perguntou: “Já leu a respeito do julgamento de Sócrates?”.

ÉPOCA – O senhor disse ter se convertido ao judaísmo. Como foi a conversão?

Farah – A história do povo judeu, de 4 mil anos é linda (na verdade, o povo judeu tem 6 mil anos, segundo os historiadores) , apesar das vicissitudes. As mãos de Elohim – um dos muitos nomes do Criador – os guiam, até hoje. O Adventismo tem muitos pontos em comum. Tentei estudar hebraico, em 84. Em 2000, tendo estado em Israel, fui estudar hebraico, posteriormente o árabe; queria ir para aquela terra e levar meus pais. Submeti-me a um ritual cabalístico, só não mergulhando na represa, por estar muito frio e eu havia adoecido naqueles dias. Mas, para mim, foi suficiente. A questão de receber Jesus como o Moshiah já é superada por muitos judeus que crêem na obra messiânica de Joshua (Jesus): muito elucidativo é o livro de David Flusser, da Hebrew University, da livraria Sêfer, “Jesus”, de excelente tradução.

ÉPOCA – O senhor continua frequentando templos religiosos?

Farah – Igrejas, sim. Continuo indo à Adventista e estou me preparando para o rebatismo. Há um grupo de judeus adventistas que seguem o serviço religioso semelhante ao da Sinagoga, oram e cantam em hebraico, muito saudável, bonito.

ÉPOCA – Sua crença em Deus mudou nos últimos tempos?

Farah – Continuo crendo e esperando nEle me apegando cada vez mais a Ele. Antes de sair, peço que dirija os caminhos e, ao chegar, agradeço. Durante o dia, converso com Ele. Ao acordar de madrugada, também converso com Ele, pela saudade que sinto dos meus pais. Na Filosofia, tenho-O encontrado e conhecido, como disse uma vez a emérita Marilena Chaui – não me comparo a ela, que é excelente, mas essa é uma postura que considero. Leia +.

fonte: Época

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