Linguagem apropriada

Um mito muito conhecido dos tempos de Jesus de Nazaré dá conta de que, “certa vez, um dos discípulos dos fariseus chegou para o mestre e perguntou: Senhor, nós devemos pagar o imposto a Cesar ou não? Então o Galileu tomou uma moeda do tributo e perguntou ao discípulo: De quem é esta efígie e esta inscrição? De Cesar. A isso ele declarou: então daí a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus. Houve um silêncio sepulcral por alguns segundos.

Jesus tinha cada uma. Imagine só, o Mestre dos mestres dizendo uma coisa dessas. Ora Jesus, tenha paciência. Onde já se viu. O imposto deve ser pago acima de qualquer fator. Que história é essa? Essa resposta dúbia de Jesus soou como uma indução ao não pagamento. Em outra passagem bíblica, Jesus chega a mandar pagar o imposto, apenas para evitar escândalo e nunca diz que é dever de todo cidadão ou um ato de cidadania, bem a gosto dos políticos governantes.

Aliás, Jesus não lidava bem com dinheiro, aparentemente. O tratamento dispensado pelo Mestre às questões financeiras era secundário e displicente. Toda vez que lhe faziam lembrar o assunto ele ficava irritado e impaciente. Algumas vezes, subia-lhe o sangue. Ele precisou lembrar os seus discípulos da multiplicação dos pães, cerrando os dentes, deixando bem claro que dinheiro não era necessário e chegou a dizer que ele era a raiz de todos os males. Só de falar nisso, sinto vontade de afirmar que Jesus era meio irresponsável. Não lhe parece?

Contas devem ser pagas em dia e todos devem viver atrás de dinheiro, era o que ele deveria ter dito. Deus, o pai do Nazareno, foi muito mais coerente quando Adão e Eva pisaram na bola desobedecendo às ordens do Criador: “Com o suor do teu rosto trabalharás todos os dias de sua vida”, disse a Adão e isso era uma maldição. Malafaia e seus companheiros da prosperidade acreditam que essa foi a maior benção dada por Deus ao homem. É tudo que eles querem, todo mundo sendo “abençoado” e no dia 5 de cada mês, indo levar o dízimo lá nas igrejas deles.

Já imaginou se, de repente, todo mundo resolve acreditar em Jesus e começar a não dar valor ao dinheiro, mais. Pior, e se todos os cristãos, inclusive os da prosperidade, descobrirem que não precisam mais trabalhar com o suor do seu rosto para obter o sustento? Pensou se todos nós soubéssemos multiplicar pães e peixes, ou jogar a rede no lugar certo e numa puxada só pescar todo o peixe necessário para toda uma estação de pesca ou simplesmente sentar à mesa e todo o alimento necessário aparecer do nada, segundo nossa vontade e fé?

Você não vai acreditar, mas sou completamente escravizado ao dinheiro. Minha vida, em primeiro lugar, é correr atrás dele. Quanto mais o persigo menos o encontro. Deus fez comigo muito pior do que fez com o marido de Eva. A maldição dada ele era trabalhar com o suor do rosto, etc., Para mim é, ” viver sem trabalho”. Essa idéia é inconcebível. Um homem sem trabalho é considerado indigno, vagabundo, além de todas as conseqüências que não trabalhar acarreta, especialmente quando você tem uma família para sustentar, além de você.

É tudo muito engraçado e incoerente. Nem Paulo, o apóstolo, seguiu o modo insano de viver sem trabalhar de Cristo. Talvez só Pedro e João tenham conseguido, apesar de que Pedro logo tratou de virar Papa, pelo menos é o que os católicos dizem. Você e eu sabemos como vivem os Papas. Não, não pode ser, os evangelistas não entenderam o que Jesus disse e praticou. Interpretaram tudo errado. Quando o Mestre disse a Marta que Maria ocupava-se da parte boa enquanto ela estava perdendo tempo trabalhando, todos o fuzilaram com os olhos, menos Maria, claro.

Se ele tivesse usado uma linguagem mais apropriada nada disso teria acontecido e não seria necessário Deus me usar como uma espécie de profeta ao contrário, ou seja, eu sou o exemplo de como não se deve fazer, um dogma a não ser seguido. Tenho todas as chances de ser um fenômeno e não passo de um covarde tímido. E pensar que atravessei o Atlântico com uma única nota de cinco cruzeiros no bolso, que só dava para pagar a passagem do ônibus do aeroporto até em casa, mesmo assim cheguei em casa com a nota intacta.

Meus amigos, há uma grande chance de Jesus ter ensinado a coisa certa.

Lou Mello, no blog A Gruta.

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