Pequenas histórias de amor

Foto: Biblioteca Pública de Seattle

The story of a love is not important –what is important is that one is capable of love. It is perhaps the only glimpse we are permitted of eternity.
Helen Hayes

Pois é. Minha história com os livros é uma série de pequenas histórias de amor.Não sei bem qual foi o instante, mas um belo dia o livro começou a fazer parte do meu acervo de afetos e, de alguma forma, descobri sua capacidade em transformar a minha vida, pensamentos, idéias e humor.

Primeiro acho que já existia um encantamento com o livro mesmo, o livro-papel, o livro-objeto, o livro com cheiro de livro, o livro “capa-recheio-capa”, com ou sem figuras. Aliás, os livros sem figuras eram ainda mais atraentes porque eram livros de adultos, devendo possuir algum poder mágicos e secreto pela dificuldade em serem decifrados. Livros sem figuras eram os de maior mistério.

Lembro de minha mãe e os livros. Nossa família morava em um pequeno e tranqüilo bairro de SP que fazia divisa com outros maiores. Em um raio de poucos quilômetros tínhamos acesso a três grandes bibliotecas públicas. Mamãe passava por todas e retirava periodicamente a cota máxima permitida por usuário, de forma que tínhamos, a cada semana, 10 a 12 livros novos em casa.

Ela lia quase sem respirar, sentada na cabeceira da cama de casal, e eu me divertia, muito pequena, talvez em torno de três ou quatro anos, em ficar deitada de cabeça para baixo para poder ver bem seu rosto e olhos passarem velozes pelas páginas, movimentando-se em um vai-e-volta suave e contínuo. De vez em quando ela sorria, de vez em quando franzia a sobrancelha, por vezes mordiscava os lábios ou surgiam pequenas lágrimas nos cantos dos olhos. Aí eu a interrompia perguntando: “Mamãe, o que você está lendo agora-agora-agora ?” Ela suspirava e me narrava o trecho onde estava. E nesse exato momento o que eu mais desejava na vida era poder ler o livro sem imagens ou cores.

Minha professora mais querida e os livros, outro exemplo. Chamava-se Lucia Biondo, cabelos grisalhos, dava aula na quarta série do primário, no tempo em que em quarta série só existia uma professora. Ela iria se aposentar no final do ano e me prometera, em troca de todos os meus cadernos com as diversas matérias, uma coleção de livros inteira – à minha escolha – do seu acervo particular.

Então chegaram os dias próximos do Natal, e, cumprindo a tradição familiar das visitas-maratona aos professores do ano letivo de cada filho, fomos todos: papai, mamãe, eu e meus irmãos a casa da Dona Lucia. Eu, tensa, abraçada aos cadernos encapados de vermelho e absolutamente organizados. Então Lucia nos recebeu e pediu que a seguíssemos até a pequena biblioteca nos fundos da casa, com prateleiras lotadas do chão ao teto. Tremendo de emoção e dúvidas, apontei para a sequência de livros mais colorida que pude identificar. Eram cerca de 20 volumes . “ – Veja, a autora chama-se Agatha Christie, estes são romances policiais ”, explicou um adulto.

Ganhei a coleção – minha primeira coleção. Naquele dia também soube que me tornara a menina mais rica do mundo.

A memória dos livros sempre se mistura com a memória de quem mais amo. Meu avô, meu primeiro pediatra, certos amigos, posso lembrar de cada um deles segurando algum livro e até algumas de suas preferências. A primeira poesia. O primeiro poema declamado. A primeira encenação de teatro. As primeiras cartas enviadas pelo correio. Colar o selo era quase um ritual, uma reza, delicadeza, religião.

Talvez seja por isso que as religiões ensinem que Deus é o Verbo. Verbo onde a palavra vai acontecer, a idéia vai acontecer, o primeiro pensamento vai virar energia e ação. E depois da ação, com toda a delicadeza que só a palavra tem, surgem a vida, a história e o amor.

HBP, 14/09/09

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