Toda despedida é falsa

(trágico é que alguns acreditam)

Tensionados, não existe escolha, existe precipitação. Alguém pedirá para sair.

Estamos os dois adoecidos, nenhum tem condições para ajudar o outro. Seu jeito de ser cuidada é diferente do meu jeito de ser cuidado.

Vou remando as bordas da camisa. Minha lentidão é despedida. Quando todo gesto se torna relevante por ser irrelevante. Não desloco os cotovelos porque os músculos argumentam que não vale a pena. Demoro nos movimentos singelos como levantar a xícara de café. Ele já esfriou e não sofro com isso. Não sofro com coisa alguma. O maior sofrimento é não sofrer. É quando não há nem mais ânimo para sofrer. E conhecemos a apatia da dor, um cansaço inacreditável e resta a canção sem a letra, resta a vontade do poema e sua desistência. O pensamento vem e apago. Não me interessa apanhá-lo. Passo a ser meu único leitor. Não tenho esperança de que ficará emocionada, que me avisará que foi um susto desnecessário e me acalmará para dormir em seguida.

Maravilho-me com seus cílios e não comento. Maravilho-me com suas pernas brancas, os joelhos lisos, e não sopro nada. Maravilho-me com sua boca graúda e não me inclino a acompanhá-la. Beijar é andar de lado no cavalo.

Permaneço sentado nas mãos. Solteiro dos anéis que não vieram. Se chover, então, vidro-me na varanda sem mexer o tronco. Torço para que a chuva demore. Não suportaria os conselhos das calhas.

Sou a completa anulação de sentido para me movimentar. Espero que pule da dor para me abraçar. Que tome uma atitude, que não me magoe. Mas sei que o entusiasmo é frágil. Podemos supor que estamos recuperados e logo afundaremos novamente no delírio. A cabeça nos engana e as pernas não mandam os últimos boletins.

Repare que o soro fala devagar como a gente nesta hora. Tão devagar que engolimos de volta a pronúncia, o soluço, o sim.

Acordei desejando mandar flores. O mesmo arranjo que enviei na primeira vez. Iria colocar junto sua canção de Ella Fitzgerald. Recuei de bobo. Achei que não mudaria nossas dificuldades.

Pensei em buscar um prato bem bonito do seu restaurante favorito e deixar em seu trabalho, já que não que terá tempo para almoçar. Mas retrocedi de novo. Achei que não contaria com tempo para agradecer.

Acovardo-me de gentilezas. Falta a esperança de que serão compreendidas. Ou que me procure com meus apelidos pelo caminho salteado do jardim.

Chegamos ao caroço, onde os temperamentos se definem, onde não há mais a concessão dos primeiros meses. A carência é um caroço. Por isso é duro atravessar. Não é mais aquela facilidade da polpa, de atravessar com o embalo do suco. É agora que seremos pedras num canto ou seremos raízes.

Arrebento-me de arroubos, arrebatamentos. Mas a realidade é longe de minha casa. Não há amigo que me transmita o que tenciono escutar, que arranque o pessimismo poroso das folhas. Anseio por algum médico que nos avise que temos poucos meses de vida; é o suficiente para reunir as forças.

Você é intensa, mas sua intensidade não costura para fora. Eu sou intenso, mas minha intensidade costura para fora antes mesmo de comprar os tecidos. Sei que não entendo nem metade do que já sentiu por mim. Por absoluta ausência de comunicação. Sei que não entende nem metade do que sinto por você. Por absoluta ausência de paciência. Eu preciso ouvir, você não precisa falar, nos amamos desinformados.

Maldita chuva que começou. Os relâmpagos são gravatas azuis em terno escuro. A sobriedade das sobras. A chuva sempre está vestida para velório. A chuva lava bagunçando. Deixa tudo mais sujo. Muito mais verdadeiro.

Pretendia dizer que

A solidão é cheia de boas intenções.

Fabrício Carpinejar
arte: Monet

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