Uma vaga lembrança

Gadamer, em seu Verdade e Método, deu-nos uma daquelas frases coringas da filosofia com a qual se pode dizer muitas e distintas coisas sem, no entanto, nem contradizer nem esgotar sua idéia. “Tudo o que existe é linguagem”. As coisas existem em nosso mundo de sentidos à medida que as temos nas palavras. As coisas existem, mas são as palavras que as colocam na vida. Uma coisa é existir, outra é se relacionar.

Uma criança, ávida por viver, põe-se no mundo enquanto descobre os signos da vida. Logo descobre que falar é mais intenso que apontar com o dedo. Palavras indicam movimentos no mundo. Dedos, apenas as coisas do mundo.


As palavras movimentam. Nas palavras o Gênesis do mundo e da vida.


Deus cria tudo dizendo, menos o homem e a mulher. Para as coisas, Deus disse “haja”, para a humanidade, desdisse as coisas: proibiu o fruto. Um incontornável convite a fazer com uma coisa algo mais. Um movimento, uma idéia, um significado. Palavra é a transgressão da coisa e Deus transgrediu o fruto quando fez dele uma outra coisa além de fruto. Fruto proibido é bem mais que fruto. É uma discussão.


Um homem só deixa de ser um boneco de barro vivente quando transgride, quando as coisas a sua volta tornam-se outras coisas. Interpretação.


A humanidade só começa a existir quando, à imagem de Deus, se inicia no jogo da linguagem. Dialética. Quando aceita o convite imagético da serpente para levar a sério o exemplo divino de fazer outras coisas com as coisas. Comer o fruto não era apenas comer o fruto. Era transgredir, à semelhança de Deus, o fruto. Era, finalmente, ser à imagem de Deus. Ser que transgride as coisas criando mundos pela palavra.


Não mais apenas Deus diz e movimenta o mundo, também o fazem homem e mulher. “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal.” Agora está criada a humanidade. Deus desdisse o vazio e colocou em movimento o mundo, criação. A humanidade desdisse a mesmice e colocou em movimento a consciência, história.


Com a palavra nada mais é uma coisa, tudo pode ser sempre outra. E por isso sofremos, porque com a palavra tudo é instável. O imprevisível cria e se diverte: tudo era bom, mas o incerto também aflige e dói. E para deixar clara a opção criativa de Deus pelo movimento, a humanidade é expulsa da pior de todas as tentações: por medo do aleatório movimento da vida, da dor de parir, do suor de trabalhar, da incerteza dos frutos que nunca mais serão apenas frutos, o homem e a mulher tentem coisificar as palavras no Reino previsível das eternas certezas. Regressão.


Expulsão é exposição à dinâmica da vida.


Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”. Por isso o SENHOR Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado.


Eis o que é a certeza, a vaga lembrança de uma tentação.

Elienai Cabral Jr.

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