Falo sério

Briguei feio com meu melhor amigo. Fiquei ofendido.

Juro que não desejava esse fim para uma amizade de infância. Lamento o trincar do copo de uísque. O rebentar da corda do pião.

Mas o que fez não tem cabimento.

É que Mário Corso não conta nenhuma briga com sua mulher. Nenhum desentendimento com Diana. Nenhuma fagulha, rusga, faísca. Não conta; como vou confiar em quem está acima da maldade? Como posso garantir que ele é sensível?

Quem é perfeito é insensível, penso. E já quero reatar amizade porque sei que somente ele entenderia essa frase. Mas tenho que me controlar.

Metade da conta no celular e dos gastos em bares decorre de minhas lamúrias para ele. Narro meus dramas amorosos, desfio comentários perversos, peço conselhos afobados, confidencio o quarto antes mesmo de abrir as cortinas. Tudo impulsivo, água barrenta, sem filtros. Na confissão, há a umidade dos restos de comida. A remela dos olhos. Segredamos o pesadelo ainda dormindo.

Não que seja aquilo, é a emoção daquilo. Amigo que é amigo não tem banco de dados. Queima os arquivos. O que se comentou de uma mulher será esquecido no dia seguinte. Para o bem da relação.

Não venho desmerecer sua grandeza epistolar. Só que é bom demais para ser verdade. Dependo de uma gafe dele para não me enxergar conversando com meu pai. Um tropeço para não me penalizar com arrependimentos. Um insulto para relaxar e reaver a vontade de continuar praguejando.

Não suporto a falta de igualdade. Até na sessão dos Alcoólatras Anônimos todos devem desabafar seus problemas e vícios. Por que ele não?

Seu exemplo invicto me aniquila. Passo a duvidar dele para me perdoar. Se confiar que é realmente assim, que não existe uma incompreensão em seu casamento, assumo sozinho as despesas da maldade. Não me restará fiador.

Mas ele não abre a voz. Sua palavra é como eucaristia, evita morder, amolece no céu da boca.

Não partilha dessa cumplicidade masculina. Eu explodo, ele cala. Vou detalhando cenas, expondo as vísceras, sangrando, e não retribui com algum incidente vergonhoso.

Ele me isola: deveria inventar se fosse o caso. Ele me empareda: assemelho-me a um difamador. Um amargurado. Um encrenqueiro

Não é justo. Corso banca o anjo do samba-canção, veste terno de linho branco com um cravo na lapela. Longe das raízes, a flor é uma gravata insuportável.

Parece que não se incomoda com a vida, que não se recusa a pôr a mesa, a lavar os pratos, a levar o lixo. Seu controle samaritano me enerva.

Cadê suas ofensas domésticas? Sua oposição?

Ele está me constrangendo ao silêncio. Claro, sugere que estou incomodando, atrapalhando, que não suporta ouvir de novo a mesma história.

Eu ameacei Mário Corso. Lancei um ultimato.

“Discuta hoje com sua esposa e depois me ligue, senão não sou mais seu amigo.”

Fabrício Carpinejar
arte: Peter Blake

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