Fetiches

Numa noite dessas borocoxôs, noites sem esperança, M., de bermuda e chinelo de dedo, toscão, entrou na locadora. Escolheu que DVD ia levar, foi na bancada, tudo normal. Daí Ela veio e perguntou o número da ficha, pegou o filme pra registrar, papo vem, papo vai. Tudo normal. Até que M. soltou um gracejo, piadinha simplória. Ela riu, e quando Ela riu apareceu que usava aparelho nos dentes. Aí M. sentiu um troço subindo, e para recuperar o fôlego, disse:

– Tá gostando de usar aparelho ?
– Como assim, tou gostando ?

Pergunta idiota, “tá gostando de usar aparelho?”. É o mesmo que perguntar “e aí, tá curtindo o furúnculo?” . Bola fora. Barulhinho de apito na sonoplastia reforçando a gafe. Seguiu o papo. Conversaram mais um pouco. Até que M. comentou de um filme, Ela sorriu de novo – não por achar graça no filme, e sim por cumplicidade, por gostarem da mesma coisa.

Ela levantou de trás da bancada, e veio meio mancando para pegar o filme citado, na prateleira. Quando Ela saiu de trás do balcão, outro impacto: gesso. Uma linda e já meio encardida botinha de gesso, perfeitinha, indo do menisco até os dedinhos pintadinhos de vermelho descascado. E pensar que a noite não dava esperança.

Aí Ela pegou o filme na mão e foi ler a capinha, ver quem estava no elenco, essas coisas de quem gosta de cinema. Afastou a caixa do filme um pouco dos olhos, e M. daí teve um estalo, imaginando o que estava por vir. Exatamente: Ela abriu uma gaveta na bancada e pegou os óculos. Óculos ! Um lindo e sóbrio par para ler de perto.

M. não perdeu tempo. Pá, na hora: convidou pra sair. E começou a namorar com Ela naquela noite mesmo. Fez bem.

Um mês depois Ela tirou o gesso. Deu um ano, tirou o aparelho. E já ia vendo cirurgia pra corrigir o olho quando M. resolveu agir, antes de perder absolutamente tudo:

– Não, os óculos não. Pelo menos os óculos!

Lusa Silvestre, no Blônicas.

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