Sem medo da virtualidade

Semana passada, testemunhei uma situação curiosa e reveladora. Após uma palestra, um jovem de 25 anos me pedia opinião sobre o fato da internet, em resumo, “permitir que qualquer um faça qualquer coisa, sem nenhum critério de avaliação prévia”. Ele se incomodava com isso, pois que, diferentemente de outras mídias, a internet não cumpriria uma necessária seletividade para dar espaço a quem merece.

Respondi que o fato é que esse “defeito” é o grande mérito da internet. Claro que o preço é a pouca credibilidade que o meio merece, exatamente por não ter uma “porteira” para selecionar quem pode e quem não pode entrar, ser uma casa da mãe Joana… Mas por outro lado, é isso que dá, igualmente, a todos nós, a oportunidade de avaliarmos as coisas admitidas sem nenhum critério, sob os nossos critérios. Pode ser mais democrático? Por que esse preconceito, então?

Fiz lembrar que, quando vamos a uma banca de revistas, somos, geralmente seletivos. Escolhemos nossas revistas e jornais e dispensamos o resto. Nesse caso, o critério de escolha também é nosso. Adquirimos o que julgamos merecedor do nosso interesse e confiança e julgamos, sim, um monte de coisas que não levamos como porcarias. Isso acontece na escolha de um filme, de um livro, de um restaurante…

Antes da internet, a relevância de toda manifestação cultural era avaliada pelo interesse da mídia convencional. Embora qualquer um sempre tenha podido fazer uma revista, fatalmente esbarraria na dificuldade de distribuição; da mesma forma, qualquer um podia alugar um estúdio e gravar um CD, mas para tornar-se “famoso” eram outros quinhentos, pois, para isso, tinha que cair nas graças da mídia. A internet trouxe para a nossa vida o retrato mais bem acabado dela mesma, ainda que virtualmente. Podemos dizer que tudo, absolutamente tudo, está na internet, franqueado para todos, absolutamente todos.

Acostumados a seguir, historicamente, os critérios de alguma forma de poder, nos sentimos meio ou muito perdidos, diante de tanta liberdade de informação e de tanta liberdade de expressão. É verdade que a internet “desbarata” o princípio da organização “civilizada” e que nos dá segurança. Aprendemos, desde pequenos, a ter objetivos pré-estabelecidos em nossas vidas, a partir das experiências de nossos antepassados. Dá medo, pois, podermos, potencialmente, construir, cada um, um caminho diferente.

Implica que temos que ter capacidade criativa e coragem para enfrentar os riscos, desde logo. Só saber disso já é suficientemente apavorante. É duro lidar com o caos depois de tanto tempo aperfeiçoando nossa disciplina para um padrão de convivência grupal. É como se estivéssemos diante de um novo começo para a Humanidade. Com a diferença de que não estamos à mercê da natureza, pois nossa possibilidade de interferência na virtualidade não muda, chova ou faça sol, além de ser um novo começo que já começa com seis bilhões de semelhantes, dispondo das mesmas possibilidades.

É essa quantidade extraordinária de envolvidos com a internet o que faz com que ela evolua tão rapidamente. Se milhões de anos atrás, alguns humanos descobriram o fogo e isso representou por muito tempo a mais importante conquista de toda uma época, hoje, o equivalente ao fogo na internet, segundos depois de sua descoberta, já ganha versões evoluídas, novos aplicativos e, em dias, já pode ser superado por uma nova “descoberta”.

O que não significa que, por conta disso, todos nós tenhamos que entrar nessa paranoia, nesse permanente estado de emergência, com medo de ficar para trás. Como em todos os tempos, vão continuar convivendo os conservadores e os progressistas ou que nomes lá tenham eles. E o mundo, real ou virtual, vai aceitá-los com naturalidade. Pois tanto uns quanto outros foram determinantes, com seus talentos, para uma evolução que nos permitiu, entre trancos e barrancos, cuidados e descuidos, sobrevivermos até hoje. Devemos encarar a internet como encaramos a vida.

Aliás, queiramos ou não, é isso o que acabamos fazendo, naturalmente. Quem tem medo da internet, provavelmente, tem outros medos anteriores. Quem tem paixão pela vida, fatalmente vai encarar a vida virtual, também apaixonadamente, no que ela tenha de pior ou de melhor.

Stalimir Vieira, no Propaganda & Marketing.

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