Cornos, melhor não tê-los (mas se os temos, como fazemos?)

Evidentemente, eu nunca fui traído – chifres, brochadas, hemorróidas, não é o tipo de coisa que acontece com a gente. Mas acontece, sempre, com um primo da gente, e esse meu primo me contou, tim tim por tim tim, como foi que ele descobriu que sua namorada tinha ido para cama com um cara que não era ele, como pensou em homicídio, suicídio, depois ouviu Tim Maia por semanas a fio e acabou reconciliando-se com a vida. De forma que posso relatar às leitoras, com alguma verdade, o que se passa dentro da cabeça de um homem quando ele descobre que, do lado de fora, nasceram dois portentosos chifres.

Homicídio

Meu primo e sua namorada estavam dormindo, quando o telefone dela tocou. Ele acordou, pegou o aparelho, viu lá “Adalberto” piscando, entregou para ela. Ela desligou imediatamente. “Quem era?”. “Ninguém”. “E por que “ninguém” se chama Adalberto?”, ele insistiu, ela gaguejou, a casa caiu. A namorada do meu primo chorou, disse que o amava, que estava arrependida, mas que tinha, de fato, dado pro tal Adalberto – o mundo às vezes é muito cruel.

“Eu mato esse filho duma égua!”, gritou meu primo, minutos an-tes de expulsar a namorada de sua casa. O impulso homicida, felizmente, passou em menos de 24 horas, e a raiva foi solapada pelo total desespero, quando meu primo deu-se conta de que um filme pornô ininterrupto era projetado na tela de seus pensamentos, estrelado por sua amada e um tal Adalberto.

Suicídio

Adalberto não tinha um rosto no filme, uma vez que meu primo não o conhecia, mas seu pinto era imenso e fazia a moça gozar e gritar “meu Deus, Adal, isso é que é sexo, não aquela mixaria que eu tenho com o primo!”. Meu primo estava ferido no centro de sua masculinidade. Sentiu-se um personagem de Nelson Rodrigues, tinha ganas de sair na rua gritando “sou corno! Sou corno!”, depois tomar formicida e atirar-se de um precipício.

Tim Maia

Meu primo bebeu cachaça, ouviu “Me dê motivos” 3423 vezes, até que um dia, depois de ter derramado lágrimas suficientes para encher todas as garrafas que havia esvaziado, quando seu ego estava desidratado como uma banana passa, teve uma iluminação. Não que a dor tivesse sumido, o céu continuava carregado, mas de um buraco entre as nuvens surgiu o raio de luz, ele viu aquele mesmo filme e pensou: “Ela deu pra outro cara. Ela gozou com outro cara. E daí? Eu não sou o único homem desse mundo. Ela ama a mim, não a ele. Paciência”.

O tal do Adalberto surgira numa época em que meu primo esta-va viajando toda semana para Goiás, muito empolgado com a venda de polias para o maquinário de uma fábrica. Estava dando pouca atenção à sua namorada. Ele havia, até mesmo, ido para a cama com uma moça chamada Neiva, numa tarde, em Goiânia. E sabe o que ela representava para ele? Nada, só isso, uma moça chamada Neiva, numa tarde, em Goiânia. Se meu primo gostava da namorada, teria que perdoá-la e aceitar que ela ter transado com um cara chamado Adalberto significava o mesmo que ele ter transado com uma moça chamada Neiva. Ele teria que escolher entre seu amor e seu narcisismo, e ficou com o primeiro.

Meu primo namorou mais um ano aquela mulher. Depois terminaram, por razões internas que não vêm ao caso e nada têm a ver com o nome no celular. Meu primo diz, hoje, que acha até bom que tenha passado por isso tudo. Ele amadureceu, descobriu a dimensão trágica escondida atrás da música pop e, de quebra, ainda perdeu a barriga de tanto chorar de estômago vazio. (“Um bom pranto vale por mil abdominais”, me disse). Hoje, acredita, é até uma pessoa mais serena. Mas ai se descobrir que a atual namorada o traiu: ele mata os dois! Mata, esfola e joga no rio!

Antonio Prata, na revista Cláudia.

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