O gosto da escrita

Venho de uma família religiosa. Tenho baixa auto-estima desde a infância e luto contra isso. Casei-me há 2 anos e meio. Durante o namoro, meu marido morava a 2.000 km de distância. Só me mudei para a cidade dele três meses antes do casamento. Rolou sexo e ele não era muito bom na cama. Achei que fosse timidez. Passaram-se quatro meses e nada mudou. Fazíamos sexo, ele se satisfazia e eu nada. Com o tempo, as coisas foram piorando e ele já não me procurava mais. Após sete meses, mudamos para uma cidade horrível, que fica a 3.500 km dos meus familiares. Aceitei acompanhá-lo porque o casamento para mim sempre foi sagrado, mas um ano depois de casada, já tinha engordado 25 quilos. Estava mal e comecei a fazer ‘loucuras’. Criei um MSN falso, com um nome diferente e usava fotos de uma conhecida minha. Depois, criei um Orkut. Encontrei um rapaz e começamos a conversar pelo MSN. Sentia por ele o que nunca havia sentido, ficávamos a noite inteira conversando. Um dia, resolvi contar que o meu nome era outro e a garota das fotos não era eu. Ele me excluiu do Orkut dele e me bloqueou no MSN. Sofri demais, comecei a tomar um antidepressivo e a fazer psicoterapia. Não adiantou nada. Passado um mês, voltamos a teclar e ele quis me ver na webcam. Demorei para aceitar. Nesse dia, ele constatou que eu havia mentido e rompeu de novo. Vivo triste por saber que brinquei com os sentimentos dele, que não consigo parar de “criar uma história”. Continuo mentindo pelo MSN, embora já use uma foto verdadeira. O que eu faço?

O seu casamento é um desastre. E é obvio que, apesar de religiosa, você precisa considerar a possibilidade de se separar porque ele é incompatível com a sua vida. Nenhuma religião pode negar o direito ao divórcio num caso como o seu.

O uso que você faz da vida virtual como uma compensação para a vida real tem limites e você sabe disso. Agora, não me parece que você use a internet só para se compensar da frustração no casamento. Digo isso por duas razões. Por um lado, porque você me escreveu o maior e-mail que eu já recebi. Por outro, por você ter escrito que não consegue parar de ‘criar uma história’. Ora, é precisamente o que o ficcionista faz, e sem isso ele não vive.

A sua vida virtual revela o gosto pela dissimulação, que talvez esteja na origem de uma vocação de escritora. Você já considerou esta possibilidade? A escrita é um caminho fecundo pelo qual você pode enveredar. Mas este caminho não exclui a análise, que você precisa fazer para conquistar uma outra vida. Escrevi análise porque você tem que se escutar e analisar o que você diz para se liberar do discurso da família.

Betty Milan, no site da Veja.

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