Ambiguidades masculinas

Encontrei meu amigo no avião, estava de escala, já com o cinto e a cara de quem comeu duas vezes o bolinho de chocolate e não suportava mais o serviço de bordo.

Ficou uma poltrona atrás, tentamos engatar uma conversa das últimas notícias da última década. Mas os passageiros ao lado pareciam interessados em acompanhar o assunto e nos calamos. Sempre que alguém pega uma revista para ler é que vai fingir que não está ouvindo. A revista é o headphone dos curiosos.

Fábio questionou se eu havia me separado mesmo. Sim, respondi, com a tranqüilidade treinada de um suicida.

– Precisamos pôr o papo em dia.
– Ok, quando pousarmos em Porto Alegre, tomaremos um café, que tal?

Depois de enfrentar um aeroporto enlouquecido com o feriado, pedir mais licença do que maternidade, aquietamos as malas na lancheria.

Seus olhinhos eram lantejoulas de carência. Ele me narrou o seu divórcio, o quanto experimentava uma encruzilhada. Amava sua mulher, mas não conseguia superar o fim da paixão por um sentimento mais calmo. Permanecia ligado na arrebentação, naquela loucura de se exibir em todo momento. Sofria para aceitar a serenidade do mar.

– Mas o mar está mais profundo agora, melhor de mergulhar, não reparou?

Ele entendeu, assentiu arrumando as franjas, e elogiou a cumplicidade com ela, comentou as recaídas, afirmou que basta encontrá-la e toda intimidade volta. Só não viajou a França para resolver primeiro o impasse, que faz sala dentro dele para ajudar o retorno.

Confessou sua insegurança, que atualmente os dois moram em cidades diferentes, que tem medo dos casos dela, de perdê-la em definitivo.

Eu fui me sentando nos cotovelos, deliciado com a declaração de amor. Lia novamente Sabrina, Júlia e Bianca. Agora não mais escondido no porão. As fotonovelas corriam em balões apanhando suas palavras.

Um homem é capaz de amar verdadeiramente, pensei, e fui afrouxando o nó da gravata, me avaliando incapaz, troglodita, amaldiçoado de pessimismo.

Passei a perguntar apenas para que ele continuasse a falar. Admirava sua coragem.

Fábio concluiu que se separou porque não acreditava que poderia ser melhor, antecipou o término como forma de prevenir o despejo. Não tolerou sua decadência.

Tanta decência. Tanta honestidade. Logo orientei que deveria apostar na história. Não adiar mais.

Ele concordou, desistiria de enganar a saudade. De sofrer em segredo, pois sofrer já vinha se tornando um segredo.

Descemos a escada rolante pacificados, resolvidos. As chaves no bolso esquerdo e as moedas no direito, como homens organizados. Agradeceu meus conselhos, fundamentais para sua decisão e adiantou que seria o padrinho da reconciliação e me convidaria para jantar.

Ao dirigirmos a um táxi, eu o vi cumprimentando uma amiga na fila. Aproximou-se de meu ouvido e me explicou:

– Ainda terei um rolo com ela.

Fabrício Carpinejar
arte: Keith Haring

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