A imagem dos jovens na imprensa

O desemprego entre os jovens, tema dos jornais na semana que passou, só foi discutido – ou melhor, noticiado – porque foi divulgada, pelo IBGE, uma pesquisa sobre o assunto. Mostra a pesquisa: “Mais de 1,2 milhão de jovens de 18 a 24 anos não exerciam, em 2008, nenhuma atividade produtiva no Brasil. Essa enorme ociosidade juvenil – 1.245.270 pessoas que não estudavam, não trabalhavam e não ajudavam em atividades domésticas – atingia 5,37% dos 23.242.000.000 brasileiros desta faixa etária no País. Ela se deve, em boa parte, ao desemprego”. (O Estado de São Paulo, 10/10/09).

Para não dizer que se limitou a divulgar os dados oficiais, o jornal fez um box na matéria, mostrando a rotina de um grupo de jovens que passam o dia numa pista de skate no bairro da Penha (em São Paulo), de onde só saem de madrugada, segundo um dos entrevistados.

A escolha dos personagens foi, no mínimo, infeliz. Em vez de ir a uma pista de skate e entrevistar jovens que não gostam muito de estudar, não ajudam nos trabalhos domésticos ou que vivem do seguro desemprego, teria sido mais proveitoso ir procurar as filas na porta de empresas que colocam anúncios de emprego e conversar com os que estão esperando uma oportunidade. Mostrar “desocupados” que aproveitam o tempo numa pista de skate acaba levando a uma leitura pouco favorável dos jovens, que acabam passando a sensação de que estão sem fazer nada por opção.

A matéria daFolha de São Paulo (10/10/09) também reproduz os dados oficiais, mas foi mais séria na escolha dos exemplos, como a jovem que parou de estudar porque engravidou e seu marido que teve de largar os estudos para se dedicar mais ao trabalho. Essa jovem, ao contrário dos skatistas doEstadão, trabalha num salão de beleza, cuida do filho quando chega em casa e diz que não volta a estudar – embora tenha vontade – porque fica cansada para enfrentar escola à noite. Um retrato bem mais realista da situação da grande maioria dos jovens brasileiros.

Outros dados relevantes

A Folha se saiu melhor também ao explorar mais outros dados relevantes da pesquisa, a situação dos pretos e pardos e das mulheres: “Os brasileiros que se autodenominam pretos ou pardos continuam minoria no seleto grupo do 1% mais ricos do país”. Quanto à situação da mulher, as melhoras também foram poucas: “Só 29,2% das mulheres estavam empregadas com carteira assinada, percentual inferior ao registrado pelos homens (38,4%) embora o percentual das mulheres que são chefes de domicílio tenha aumentado de 25,9% para 34,9% nos últimos dez anos.”

O que a leitura do mesmo assunto em dois jornais diferentes revela?

Assuntos de relevância como a situação – e especialmente a falta de perspectiva – de jovens e de setores menos privilegiados da população (pretos, pardos e mulheres) só entram na pauta quando um órgão oficial pesquisa o tema. A imprensa se limita quase que exclusivamente a transformar os números em frases compreensíveis para o leitor, ilustrando com um ou dois exemplos (às vezes infelizes) ou a falar com os técnicos encarregados da pesquisa. Nenhum dos jornais se preocupou em discutir o tema com mais seriedade, mostrando, por exemplo, a posição do governo com relação aos jovens, ou lembrar as promessas de campanha que falavam da criação de empregos etc.

Pelo menos nessa hora, já que não se faz isso no dia a dia, a imprensa poderia discutir as perspectivas dos jovens ante a realidade do país e não se limitar a reproduzir os discursos otimistas do governo, anunciando que a crise no Brasil já passou. Se a crise realmente passou, é hora de mostrar como está a situação do emprego, da educação e da saúde, especialmente entre os jovens que estão esperando a sua chance de tomar decisões, ou, pelo menos, de ganhar a vida com um trabalho decente. Ou será que a mídia também está esperando as Olimpíadas para discutir o futuro dos jovens deste país?

Ligia Martins de Almeida, no Observatório da Imprensa.

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