Ecumenismo 100 anos depois: heresias, rachas e colibris

Já foi dado início às comemorações da histórica conferência missionária de Edimburgo, Escócia, de 1910, tida como o início do movimento ecumênico. Algo que nada teve a ver nem com o romanismo, nem como o liberalismo, mas uma iniciativa de evangélicos preocupados com a missão mundial. Até o Concílio Vaticano II (anos 1960) a Igreja de Roma era radicalmente contra o ecumenismo: quem quisesse que voltasse para a “verdadeira igreja”, nem nunca se filiou ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI) – como os protestantes e os orientais – pois nunca poderia ser ver como uma das igrejas.

A hegemonia liberal (a partir da cúpula do CMI) foi um fenômeno verdadeiro, porém posterior, e a expressão “macro-ecumenismo”, elaborado pela Teologia da Libertação na América Latina (inclusão de pais-de-santo e congêneres…) não consta de documentos oficiais de qualquer instituição, pois o termo sempre esteve restrito aos que confessam os Credos. O próprio Conselho Mundial de Igrejas se auto definiu como “uma associação de igrejas que confessa a Jesus Cristo como Senhor e Deus, segundo as Escrituras, na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

O movimento ecumênico fomentou o diálogo entre ramos do Cristianismo, concorreu para distender os relacionamentos, promoveu a organização de Federações e Alianças denominacionais, e, o mais significativo, a criação das Igrejas Unidas do Sul e do Norte da Índia, do Paquistão e de Bangladesh, quando anglicanos, luteranos, metodistas, congregacionais, batistas e irmãos livres puderam, em um processo lento, sério e profundo, se fundir em novos entes eclesiais em um continente onde somos minoritários. Por outro lado, vencidas essas etapas, se sente um certo esgotamento daquele movimento.

Cem anos depois, a trágica realidade do Cristianismo é o oposto do sonho de Edimburgo: não somente com uma crença na descrença e um relativismo ético, mas com um fracionamento institucional sem fim, com uma profusão de denominações, sub-denominações, jurisdições, ministérios e assemelhados, seja por brigas em torno de assuntos periféricos e de escassa relevância (temperatura da água do batismo, vinho tinto, rose, branco ou suco de uva na Ceia, etc.), seja principalmente, pelos rachas resultantes da escandalosa fogueira de vaidades dos líderes religiosos megalômanos e/ou narcisistas, a dilacerar o Corpo de Cristo, quando a eclesiologia pragmática se baseia no SEBRAE e em Duda Mendonça e não nos Pais da Igreja. Há “denominações” de todos os gostos para o mercado religioso e seus consumidores.

No meio desse caos – onde há mais inchação do que crescimento sadio – pululam os colibris, ou beija-flor, indo de galho em galho, a sugar néctares. Imaturos, instáveis, às vezes insanos, e insaciáveis novidadeiros, em busca de projetos e realizações pessoais, de status e de vantagens, sem raízes, sem solidez, caniços ao vento, inconfiáveis.

Nossa oração, com tristeza, é pela verdade, contra a heresia; pela unidade contra o divisionismo; pela estabilidade, contra o pular infinito de galhos. Enfim, por estadistas sólidos, firmes, sábios, corajosos, para o Reino de Deus.

Que ultrapassemos essa lamentável página da História da Igreja, antes que Cristo volte para buscar a noiva pura e ataviada.

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano

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