Sem ilusões

Zygmunt Bauman, em Ética Pós Moderna

A verdade provável é que escolhas morais sejam de fato escolhas, e dilemas morais sejam de fato dilemas, e não os efeitos temporais e corrigíveis da fraqueza, ignorância ou estupidez humanas. Os temas não tem soluções predeterminadas nem as encruzilhadas direções intrinsecamente preferenciais. Não há princípios fixos que se possa aprender, memorizar e desenvolver para escapar de situações sem bom resultado e poupar-se do amargo gosto posterior (chame-o de escrúpulos, culpa ou pecado) que vêm sem pedir na esteira das decisões tomadas ou realizadas. A realidade humana é confusa e ambigua, e também as decisões morais, diversamente dos princípios éticos abstratos, são ambivalentes.

Saber que isso é verdade (ou apenas intuí-lo, ou continuar como se o soubesse) é ser pós-moderno. A pós-modernidade, pode-se dizer, é a modernidade sem ilusões (o oposto disto é que a modernidade é a pós-modernidade que recusa aceitar sua própria verdade). As ilusões em questão concentram-se na crença de que a “confusão” do mundo humano não passa de estado temporário e reparável, a ser substituído mais cedo ou mais tarde pelo domínio ordenado e sistemático da razão. A verdade em questão é que a “confusão” permanecerá, o que quer que façamos ou saibamos, que as pequenas ordens ou sistemas que cinzelamos no mundo são frágeis, temporários, e tão arbitrários e no fim tão contingentes como suas alternativas. (…) A aceitação da contingência e do respeito pela ambiguidade não são fáceis; não há razão para depreciar seus custos psicológicos.

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Nenhum padrão universal, portanto. Nenhum olhar sobre os ombros das pessoas para ver o que fazem outras pessoas “como eu”. Nada de ouvir o que elas dizem que estão fazendo ou devem estar fazendo, seguindo depois seus exemplos, absolvendo-me por não fazer qualquer outra coisa, nada que os outros não fariam, e gozar de consciência limpa no fim do dia. De fato, olhamos e ouvimos, mas não adianta, pelo menos não adianta radicalmente. Apontando o dedo para fora de mim mesmo – “é isto que as pessoas fazem”, “é assim que as coisas são” – não me salva de noites indormidas e de dias cheios de autodepreciação. “Fiz me dever”, pode às vezes tirar os juízes de meu encalço, mas não põe em debandada o júri daquilo que eu, por não ter sido capaz de apontar meu dedo a ninguém, chamo de consciência. “O dever de todos nós”, que conheço, não parece ser a mesma coisa que “minha responsabilidade”, que sinto.

via blog Amarelo Fosco

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