Loja de colchões

A loja de artigos esportivos tem as paredes forradas por fotos de jovens correndo, escalando montanhas, remando canoas. O supermercado exibe cartazes com casais brindando, crianças babando sorvete, velhinhos comendo mamão. A confecção da esquina expõe as roupas na vitrine, em manequins, como se fosse uma turma de amigos, a contemplar a paisagem. Todo o comércio se esmera em criar um climinha em torno do seu produto, em imitar os ambientes e situações em que ele será usado: só as lojas de colchão é que não. Nesses cubos brancos, banhados a luz fria, os colchões são expostos nus, sem direito sequer a lençol, sobre camas em que ninguém dormiu nem dormirá – e isso tudo me deixa triste como o diabo.

É o colchão, não o cachorro, o melhor amigo do homem. Do colchão viemos, ao colchão voltaremos, senão na última de nossas noites, aquela que não verá aurora, ao menos ao fim de cada dia, quando, esgotados pela vigília e purificados pelo banho, sonhamos com mulheres nuas e elefantes alados – ou elefantes nus e mulheres aladas: nunca se sabe o que pode acontecer num colchão, depois que apagam-se as luzes.

O colchão é o locus do sono, do sonho, do sexo, é um bom companheiro, ninguém pode negar: por que então, ó Deus, suas lojas mais parecem consultórios dentários, templos calvinistas? Não sei. Andei pensando umas coisas aí. Talvez a intimidade entre o colchão e seu dono seja tanta que impossibilite uma ambientação verossímil. Um decorador que tentasse criar um climinha acabaria transformando o estabelecimento num sex shop ou no quarto de um estranho – e nada nos é menos íntimo do que a intimidade alheia. Daí que as lojas ficam com essa pinta de tapperware gigante, onde os colchões, pavões sem plumas, aguardam seus futuros donos em silêncio, exalando antiácaro.

Os futuros donos andam por entre as camas, apertando timidamente a espuma. Um ou outro, mais ousado, senta na beiradinha. O vendedor incentiva: “vai em frente, deita, sente as molas! E o revestimento? 100% algodão egípcio!”. O cliente sorri amarelo, não quer deitar, não quer que saibam como, de noite, sonha com mulheres nuas, elefantes alados, ou vice-versa. Não vê a hora de adotar um colchão, leva-lo dali e lhe dar casa, cama, roupa lavada.

No mundo todo é assim. Já vi lojas de colchões em Girona, interior da Catalunha, na avenida Xietu, zona sul de Xangai, em Poughkeepsie, norte de Nova York: não muda. Câmaras criogênicas, como aquelas em que os astronautas aguardam, congelados, a longa viagem de volta para casa, nos filmes de ficção científica. É a vida, sem vida. Talvez só os bares de strip e as praças de alimentação sejam lugares mais tristes do que a loja de colchões. Mas só talvez.

Antonio Prata

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