Os pobres possuirão a terra

Motivado por discussões entre parentes e amigos sobre os sem-terra no Brasil e também tendo procurado conhecer melhor teologias latino americanas, li “Os pobres possuirão a terra: pronunciamento de bispos e pastores sinodais sobre a terra“.

Enquanto lia, vi a pesquisa da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) encomendada ao Ibope que afirmava “que 72,3% das famílias de sem-terra assentadas não conseguem gerar nenhum tipo de renda”. Ainda, semana passada Paulo Henrique Amorim entrevistou Rolf Hackbart na Record News. Amorim resume a refutação de Hackbart:

“Hackbart acentua que a pesquisa CNA/Ibope não tem representatividade no universo de assentamentos do Brasil. Além disso, segundo ele, trata-se de mais uma iniciativa dos empresários do agronegócio de inviabilizar a reforma agrária.

‘É um setor da política brasileira que é muito conservador e contra a reforma agrária”, pontua Hackbart.

O presidente do INCRA destaca que o levantamento da CNA ouviu apenas nove assentamentos. “Nós temos 3364 assentamentos, onde vive 1 milhão de famílias, em mais de 80 milhões de hectares’, disse. ” Hackbart também afirmou a Amorim que todos esses 9 assentamentos da pesquisa são antigos. Nenhum deles teve obrigações legais de não-comercialização na época que foram entregues (durante o governo FHC) e alguns simplesmente não são mais nem reconhecidos como “assentamentos”.

Mas voltemos ao livro, que é excelente. Incluo aqui outras estatísticas. Essas, por alguma razão, são pouco conhecidas.

“Não é o agronegócio, principalmente a monocultura, que gera mais empregos no campo. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE 1995/1996, é a pequena propriedade que absorve mais mão-de-obra, 86,6% do total.”

“Dados especialmente organizados por Ariovaldo Umbelino de Oliveira (USP), com base nos dados estatísticos do Incra […] e do IBGE […] indicam que as pequenas propriedades, até 200 hectares, são responsáveis por 55% da produção de algodão, 75% do cacau, 70% do café, 51% da laranja, 85% da banana, 74% da batata-inglesa, 78% do feijão, 99% do fumo, 60% do mamão, 92% da mandioca, 55% do milho, 76% do tomate, 61% do trigo, 97% da uva, 72% do leite, 79% dos ovos, 86% dos animais de médio porte, 85% dos animais de pequeno porte e aves. “

Ainda:

“A CPT [Comissão Pastoral da Terra] contabilizou só em 2005, 262 casos de trabalho escravo, envolvendo 7.447 trabalhadores. O Ministério do Trabalho fiscalizou 149 dessas ocorrências e resgatou 4.361 pessoas. De 1995 até 2005 foram resgatados 18.694 trabalhadores.”

“Em 2005, a CPT registrou 1.881 conflitos no campo envolvendo 1.021.355 pessoas. […] Em 2004, foram despejadas, por ordem judicial, 37.220 famílias (o número mais elevado dos 20 anos de registro) e, em 2005, outras 25.618 famílias.”

“De 1985 a 2005 ocorreram 1.063 conflitos [rurais] com morte. Foram assassinadas 1.425 pessoas entre trabalhadores, lideranças sindicais ou de movimentos, agentes de pastoral e outras pessoas que apóiam a luta e a causa dos trabalhadores [rurais]. […] Somente 78 desses homicídios foram julgados. Foram condenados apenas 67 executores e 15 mandantes. […] Uma análise acurada dos dados da CPT […] conclui que a violência é maior onde se dá a expansão do agronegócio. A violência cresce no rastro do agronegócio.”

“De maneira especial pedimos a todas as pessoas de boa vontade que nos ajudem a ser fiéis aos nossos compromissos para que os mais pobres, sobretudo os pobres da terra, das águas e da floresta, possam ter vida e vida em abundância, até o dia em que, pela força do Espírito da Vida e pela ação de nossas mãos, haja novos céus e nova terra, uma ‘terra sem males’ na qual nunca mais haverá dor e lágrimas.”

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