Pó de giz

OITO e trinta da manhã. Toca o telefone. Jornal “CBN Total”. O Heródoto Barbeiro queria me entrevistar. Queria saber o que eu pensava de algo que estava ocorrendo com as crianças numa cidade do Rio Grande do Sul, cujo nome eu esqueci e que estava provocando reações espantadas, nervosas e indignadas entre educadores, pais e autoridades.

Não havia teoria que explicasse o que as crianças estavam fazendo e, muito menos, que indicasse rumos de ação para pôr um fim naquela coisa perigosa e jamais imaginada.

Tudo tinha a ver com uma brincadeira nova que as crianças haviam inventado: pegavam pó de giz e faziam de conta que o pó branco era cocaína. Faziam, então, pacotinhos e se punham a campo brincando, cheirando, vendendo e comprando. Brincavam de traficantes.

Pais, professores e autoridades ficaram apavorados, certos de que essa brincadeira anunciava vocações criminosas embutidas: as crianças que brincavam com o pó branco corriam o risco de se transformarem em consumidores, traficantes e criminosos quando adultos.

Acho que o barulho que os adultos estão fazendo é mais nocivo que o pó de giz. Digo isso a partir da minha própria experiência de menino. Naqueles tempos, a gente gostava de brincar com aqueles revólveres que imitavam os revólveres dos mocinhos e dos bandidos e que davam um estalo de espoleta quando se apertava o gatilho.

Mais sofisticadas eram as pistolas automáticas, que usavam não espoletas isoladas uma a uma, mas fitas em que as espoletas iam estourando automaticamente. Domingo de tarde, revólver na cintura, cara de valente, andando com as pernas abertas era uma felicidade.

Mas nunca vi sombra de preocupação no rosto do meu pai e de minha mãe. O meu revólver de brinquedo não era a profecia de um futuro criminoso.

Como nem sempre eu tinha dinheiro para comprar os meus revólveres, tratei de produzi-los artesanalmente usando bambus, elásticos de borracha, madeira e canos de guarda-chuva. Esses, sim, eram perigosos. Porque a gente enchia os canos metálicos com pólvora e era preciso calcular muito bem a quantidade de pólvora. Se a pólvora fosse demais, o cano podia explodir. Aconteceu com um amigo e, por causa disso, ele perdeu um olho.

E o ponto alto da brincadeira era no fim da tarde, a meninada toda armada, mocinhos e bandidos. “Carmoni ai!”, a gente gritava, para informar o outro que ele acabava de ser atingido por uma bala certeira. Ah! Vocês não sabem o que é “carmoni”. “Carmoni” era a transformação linguística do que mocinho e bandidos falavam: “Come on…”.

Um brinquedo adulto semelhante à brincadeira com o pó de giz são os filmes de crime e violência. Ah! Como eles atiçam nossos impulsos sádicos. Vocês não podem imaginar quantas cabeças eu fiz rolar com minha afiadíssima espada de samurai depois de ver o filme “Shogun”. Mas até hoje não decapitei ninguém, embora frequentemente o faça nas minhas fantasias.

Eu gostava de caminhar por um parque pelas manhãs. Passavam por mim umas meninas com cara de devassidão para brincar de terem passado a noite em orgias sexuais e bebedeiras e com um cigarrinho pendurado nos beiços…

Isso acontecia e acontece todo dia em todos os lugares. Mas não me consta que pais, educadores e autoridades fiquem nervosos como ficaram diante da brincadeira com o pó de giz…

Tranquilizem-se. Elas não estão anunciando uma vocação de vida devassa. É brincadeira. Igual a das crianças que brincam com o pó de giz…

Rubem Alves

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