O Brasil dos políticos

O colunista Charles Krauthammer, provavelmente o melhor analista da política americana em atividade, concedeu entrevista à revista alemã “Der Spiegel” onde faz piada com o Brasil. Diz ele que, no coração sentimental do mundo, o Brasil é “o país do futuro”. O mesmo acontece em relação a Obama. O presidente americano é uma espécie de “Brasil dos políticos”: uma promessa nunca cumprida e eternamente adiada.

A metáfora é boa. Mas, primeiro, sejamos sentimentais: eu apreciei a eleição de Obama. Apesar das minhas simpatias por John McCain. Um país indelevelmente marcado pela escravatura e que manteve a segregação racial pelo século 20 adentro teria na eleição de Obama um dos seus momentos mais gloriosos. Antes de ser anti-Obama, eu sou um vergonhoso pró-americano (“sorry”, selvagens). E nenhum outro país do mundo, sem uma maioria demográfica negra, seria capaz de eleger um negro para a chefia do Estado. Exato: nem o Brasil.

Acontece que Obama não foi apenas eleito. Na sua cabeça mitómana, ele acreditou que tinha um mandado dos céus para mudar a América e o mundo a golpes de retórica e boa-vontade.

Como afirma Krauthammer na entrevista, Obama foi eleito em circunstâncias excepcionais: seis semanas depois do colapso financeiro; e, claro, oito anos depois dos consulados Bush e das guerras no Afeganistão e no Iraque, que dividiram a América. Mas isso não impediu Obama de acreditar na sua própria natureza messiânica.

Doze meses depois, o que dizer da obra do messias? Pouca coisa.

Internamente, e apesar de contar ainda com a aprovação de metade dos americanos, a governação Obama limitou-se a importar os piores clichés do credo social-democrata que, obviamente, não se ajustam à tradição “liberal” da América. Taxar ainda mais os ricos e esticar o braço (e a despesa) do governo central pode fazer as delícias do europeu estatista. Não faz as delícias de um país que, mesmo nos seus momentos progressistas mais extremos (com Woodrow Wilson ou Franklin Roosevelt), nunca ultrapassou certos limites. A reforma da saúde proposta por Obama (preço: 1 trilhão de dólares na próxima década) é apenas um exemplo, e o melhor exemplo, de uma medida socialista que o Congresso não poderia engolir. Como, visivelmente, não engoliu.

E na política externa? Verdade que Obama venceu o Nobel, uma excentricidade de cinco noruegueses que ainda vivem traumatizados pelo fantasma do presidente Bush. Mas, tirando esses cinco idiotas, até Obama ficou embaraçado com o prémio. Não custa perceber por que.

Nas guerras herdadas, o cenário é bisonho: se esquecermos o Iraque, onde a presença americana se prolongará até 2012 (no mínimo), Obama não sabe o que fazer ao Afeganistão e agoniza diariamente com os pedidos dos seus generais para aumentar o número de homens no terreno. As indecisões de Obama servem apenas para animar as milícias talibãs e afugentar os aliados, com a Grã-Bretanha à cabeça.

O resto afina pela mesma pauta: não há acordo, ou possibilidade de acordo, entre Israel e as autoridades palestinas; o Paquistão, uma potência nuclear, está hoje mais perto de cair em mãos terroristas; a Coreia do Norte continua a testar os seus mísseis e, direta ou indiretamente, a ameaçar os seus vizinhos; e a telenovela nuclear iraniana está próxima de um desfecho triunfal que lançará o Oriente Médio na corrida às armas e, com o provável ataque de Israel, em nova guerra regional.

No cimo do bolo, escusado será dizer que Guantánamo não fechou as portas e que os suspeitos de terrorismo continuam a ser presos nos quatro cantos do mundo, sem a protecção da lei e dos tribunais.

Barack Obama é “o Brasil dos políticos”? A metáfora é boa, disse. Agora acrescento: a metáfora é injusta para o Brasil. Olhando para o último ano, qualquer pessoa racional conclui que o Brasil tem mais futuro do que a presidência do evangelista Obama.

João Pereira Coutinho, na Folha Online.

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