Uma ousada e intransigente demanda

Uma das consequências de termos, ao longo dos séculos, restringido a ameaça de Jesus com o enforcador da erudição cristã está em que aqueles que enxergam com verdadeira limpidez as desconcertantes exigências do ensino de Jesus encontram-se, regra geral, fora das portas dos arraiais cristãos. São agnósticos e ateus, que residem numa terrível esfera de lucidez em que o efeito domesticador da ortodoxia cristã não tem o poder de impedi-los de enxergar o que está de fato acontecendo nos evangelhos.

Dentre esses está o inquieto e irascível H. G. Wells (1886-1946), celebrado autor de ficção científica (bastará citar O Homem Invisível e A Máquina do Tempo, que não são nem mesmo suas melhores histórias), divulgador incansável de ciência e de história, socialista, pacifista, ardente defensor da teoria da evolução, consistentemente hostil ao cristianismo institucional e gravemente agnóstico com relação a essas coisas de religião. Em sua Breve História do Tempo, no capítulo sobre o ensino de Jesus, espreita uma passagem que me faz estremecer todas as vezes que recorro a ela e à qual, como verá o impenitente leitor, estou condenado a voltar inúmeras vezes:

A doutrina do Reino do céu, em que consistia o principal ensino de Jesus, foi certamente uma das mais revolucionárias doutrinas a já terem desafiado e alterado o pensamento humano. Não é de se admirar que o mundo tenha deixado de captar o seu significado completo, e recuado em horror diante até mesmo da apreensão parcial dos seus tremendos desafios aos hábitos e instituições estabelecidos da humanidade. Pois a doutrina do Reino do céu, como Jesus parece tê-la pregado, era nada mais nada menos do que uma ousada e intransigente demanda por uma completa mudança e purificação de nossa arquejante raça: uma purificação total, interior e exterior.

Paulo Brabo, no A Bacia das Almas.

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