Sobre "Caetano e os analfabetos" e a realidade paralela

Miguel do Rosário, autor de Caetano e os analfabetos, realmente conseguiu uma proeza com seu texto: descontextualizando o que Caetano disse (seja para o bem ou para o mal do próprio Caetano), Miguel esboçou os contornos de uma nova estética e, a partir dela, de uma nova ética para a humanidade (e, vejam vocês, aqui já começa o milagre: a criação de uma ética a partir de uma estética!)! Ou seja, graças ao seu texto, o ocidente como um todo, desde tempos imemoriais, pode agora “virar a página”, esquecer o que o trouxe até aqui, e fazer “tudo novo”.

Agora, o bacana é ser:
1. “Do povo” – seja lá que raios isso queira dizer. Mas afinal, existe uma aristocracia, uma nobreza no Brasil a qual se oponha ao “povo”?; quem não é “do povo” num país onde não há monarca?;
2. Pouco ou nada instruído, afinal, as “grandes figuras” inspiradoras de toda a grande produção cultural mundial e atemporal são pessoas assim, com “pobremas” de “iducação” – o que não passa de uma grande mentira, pois todas as personagens dignas de louvor, tanto na ficção quanto na realidade, assim o são em decorrência de seus méritos, de seu caráter, de seus feitos, não exclusivamente de seu estrito saber ou não-saber;
3. Observador da “experiência” e não da teoria – como se para observar a “experiência” não houvesse uma imensa quantidade de teoria, implícita ou explícita, consciente ou inconsciente, captando, retendo e interpretando cada fato, cada “experiência”; como se todos fôssemos ocos, bestas feras diante de um mundo desconhecido por completo, ao qual chegamos com zero capacidade para coisa alguma, passando da animalidade para a humanidade assim, por mera “observação da realidade”;
4. E sobretudo, o bacana é alcançar o poder, o sucesso, a crista da onda, seja lá como for, sendo esta a marca definitiva, a evidência final e irrefutável da nobreza de caráter, desenvoltura psíquica e pau duro!

Valha-me Deus! Nunca vi tanta bobagem junta! Observem os seguintes trechos:

“Afinal, há os que escrevem, há os que lêem, e há os que inspiram livros. São os líderes políticos, os guerreiros, revolucionários, chefes sindicais, bandoleiros famosos.”
A associação entre políticos e bandoleiros famosos será mera coincidência ou a não tão sutil apologia de algo inaceitável como a combinação entre o político e o salafrário, mentiroso e ladrão? A quem interessa que nos conformemos com uma tal associação?

“Tantos historiadores já escreveram sobre isso, sobre a auto-censura a que o homem civilizado é sujeito, causa de tantas neuras e debilidades psíquicas! Afinal, qual o objetivo do ser humano? É ser um indivíduo com algumas leituras, ou mesmo um gênio da poesia, como D’Annunzio, mas que defende o fascismo? É ser um homem culto, porém sem graça, sem coragem, e broxa?
É muito difícil ser um homem inteiro, e conciliar o desenvolvimento pleno de todas as nossas faculdades físicas e psicológicas com uma participação criativa na sociedade.”
Como assim, Miguel? Já que citaste, em outros trechos do teu texto, Homero e Platão, eu cito Sócrates, mestre de Platão, o mais central filósofo da Antiguidade e condecorado militar defensor de Atenas. Como explicá-lo, Miguel? Cito também Aristóteles, que além de filósofo e biólogo, foi, entre outras coisas, tutor de Alexandre, o Grande, o qual não carece de maiores explicitações dada sua fama atemporal de conquistador dos mais diferentes povos. Eles não eram homens desenvolvidos física e psiquicamente, Miguel? E não tinham, além disso, decisiva participação na sociedade?

É claro que ao Miguel só restou opção de abrir mão do seu pleno desenvolvimento psíquico em prol da aquisição da coragem necessária para se tornar um comunista! Bravo! Isso comprova que é realmente preciso, para se tornar um esquerdista:
1. Ou ser um imaturo e mal-informado;
2. Ou, além disso, ser também mal-intencionado para, usando um discurso hipócrita em favor do “povo”, da “criatividade” e da “virilidade” defender a ideologia que mais intensamente baniu a liberdade e que mais assassinou civis em toda a história da humanidade, a exemplo da antiga URSS, da China, da Coreia do Norte e de Cuba.

Miguel esforça-se por criar uma realidade paralela, um mundo que não existe, dividido entre os heróis não-instruídos, valorosos, criativos e com ereções eternas de um lado e, do outro, os vilões letrados, fascistas, entediantes e brochas. E quem não desejaria ficar ao lado dos primeiros, caso isso fosse mesmo assim? Na realidade paralela de Miguel todo o pobre é uma vítima e um herói, não importa o que faça: se trabalhe de sol a sol ou roube de sol a sol, se fale a verdade ou minta, se seja honesto ou viva de “jeitinho”. Nele, todo o rico ou diplomado é um algoz e um bandido, não importa o que faça: se trabalhe e estude de sol a sol ou sonegue e cole, se trate com respeito e decência seus funcionários ou os explore e humilhe, se trabalhe três meses por ano para manter o Estado através de seus impostos ou nada declare e a todos engane.

Que não se engane o leitor: uma realidade assim só traz vantagem àquele que a proclama e luta por sua instauração, pois nada melhor do que dominar um povo que se vê orgulhoso e busca mesmo por seu despreparo, por sua dormência, por sua inaptidão, por sua indiferença. Reinar sobre um povo assim é dominar uma boiada, um rebanho, extraindo dele suas crias, seu leite, seu couro, sua carne e suas entranhas enquanto os próprios bichos se sentem lisonjeados com tamanho privilégio.

Sabe, Miguel, só me resta lamentar por seus problemas cognitivos, morais, estéticos e sexuais.
Ah, e pode me chamar de fascista, direitista ou o que for. Faz mesmo parte da “argumentação” comunista o uso abundante de clichês.

Camila Hochmüller

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Sobre "Caetano e os analfabetos" e a realidade paralela

Deixe o seu comentário