A conversão dum diabo

– Eu o quero! – bradou Jesus – Vejam como ele beija meus pés. Vocês não percebem e não vêem isso?
Era inverno na cidade de Ouro Preto e sob aquele frio que rachava os seus lábios, Jesus seguia a diante e onde ele passava, a boiada ia atrás.

Sobe escadaria, desce ladeira,
Corta esquinas, versando a vida.
O mestre compassava seus passos,
Sorrindo para cada lado,
De cada segundo,
De cada frame vivo,
O mestre valsava vida.

Uma garotinha pára Jesus, e indaga:
– Ei, tio, olha o seu beiço. Está rachado. Usa esse meu restinho de manteiga de cacau…
– Garotinha, eu vou aceitar sim. Meus beiços estão doendo muito…
A tal garotinha nem sabia que estava se entremetendo num diálogo sísmico onde Jesus queria salvar um diabo.
Ela olha para o Sr. Tranca Rua, olha para Jesus e diz:
– Tio, coitado dele. Minha mãe disse que quem olhar para ele, vira estátua de sal. É verdade?
– Não garotícula linda! Ele é boa gente, só está um pouco doente e fraco de tanto carregar o fardo da cidade.
– Fardo tio? O que é isso?
– Fardo é um peso que se coloca em algo ou em alguma pessoa. Além de o nosso amigo diabo ter uma doença na alma ou distúrbio espiritual, ele carrega o desprezo da cidade e nele, direcionam todos os dejetos pertinentes a escória. O fardo dele é pesado, porque ninguém se importa com ele. Todos passam por ele e olham tudo aquilo que eles não querem ser e isso é percebido por ele e automaticamente, isso vira uma identidade dele e nele posta pela sociedade.
O diabo não parava de se derramar diante do mestre, então diz:
– Eu te adoro Jesus, deixa-me ficar aqui, em teus pés, para sempre.
Não demorou muito para o povo devoto, que estava ali presente, se questionar entre si: “Jesus vai salvar o diabo? Ele está ficando louco? A gente não vale mais do que ele? Nós não cumprimos todas as diretrizes?”
Jesus ouvindo os murmúrios dos crentes cerrou os comentários com as seguintes palavras:
– Quem são vocês, além de algozes deste diabo? Quem são vocês para determinar quem eu devo salvar? Já que vocês só acreditam em mim depois que Lucas e os outros escreveram, não leram que eles disseram? “Eu não vim destruir a alma de ninguém”
O silêncio encabulou até as pedras do caminho.
– Todos que vierem a mim, jamais eu dispensarei sem a minha dádiva. Ele me invocou e quem invoca é porque crê em mim e quem crê será salvo. Não irei destruir a alma de quem me busca, ainda mais por capricho de vocês – pontuou Jesus.
Ao proferir essas palavras, Jesus tocou no diabo e ao tocar nele, instantaneamente, o diabo se transformou em anjo.
Todos ficaram estarrecidos e inacreditavelmente, inconformados com a atitude de Jesus. O povo não queria a salvação e a libertação do diabo. Queriam que o diabo se endiabrasse mais e continuasse a receber os demônios da cidade que por hora, se travestia de ódio, nojo, egoísmo e dissimulação e mentira.
Foi aí que o já previsto aconteceu. Botaram Jesus e o diabo-angelicalizado para correr.
Foi um “pega pra capar”.
Os dois saíram correndo ladeira a baixo com uma multidão gritando “queremos salvação elitista” e o “nosso diabo-endiabrado para estrear o lago de fogo. Endiabra ele de novo, Jesus”.
Jesus e o ex-diabo correram tanto até chegarem ao carro de Jesus que estava parado há uns metros do local da confusão. Os dois entraram no carro e foram embora.
Ao chegarem aos limites da cidade, Jesus olha para o ex-diabo e diz:
– Desce!
– Mas Jesus, não posso descer!
– Desce, você precisa ir!
– Mas Jesus, eu quero ficar contigo. Juntos nós podemos anunciar as boas novas e quem sabe, comprar um galpão para reunir o povo e assim podemos criar o nosso padrão, nossa moral, nossa plataforma teológica!
– Você não sabe o que está falando! Se seus projetos forem esses você se tornará mais um daqueles que habitam naquela cidade. Não te livrei desta vida de Tranca Rua ou Demônio da Garoa da Cidade Inabitável para você virar um Diabo Sacro. Vai e anuncie o que eu fiz com você e posso fazer com qualquer um através da minha eterna misericórdia. Apenas faça isso. Sua vida será uma ponte para muitas vidas. Apenas você e você. Vá.
E ele foi.
Passou-se algumas semanas, Jesus retorna a cidade, pára numa banca de jornal e se depara com a manchete:
“O endemoninhado de ouro-pretense”
Ele lê toda a matéria e balbucia:
– Meu Pai que está no céu! Mas nem o articulista se importou em colocar o nome deste pobre homem em seu relato jornalístico. Para esse povo ele sempre será chamado de diabo, mesmo ele deixando de ser. Seria um grande passo se pelo menos o chamassem de ex-endemoninhado.
Na verdade, não importa isso, afinal, nós sabemos o nome dele, não é papai?

Baseado em Marcos 5

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