O bezerro de ouro

A laicização da ética, política, ensino, direito e estado, tendo por base o racionalismo, a primeira vista, parece ter afastado o encantamento do sagrado da esfera dos notáveis. Só a primeira vista. Porque o que de fato aconteceu é que a razão tomou o lugar de Deus. As entidades como Estado, Ordem, Lei, Ciência, encarapuçam as vestes sacras feito santos de pau oco e nós, o rebanho, cultuamos, ofertamos, ajoelhamos: sacrificamos nosso salário minguado através de impostos e toda credibilidade.

O ateísmo, esburacado por dentro, enche-se da fé no bezerro de ouro forjado a ferro e fogo no pé da montanha. Incapazes de produzir valores absolutos por si, projetamos valores no primeiro bezerro que aparece na nossa frente ou caímos no relativismo onde a força impõe a verdade de melhor designer. Numa osmose enlouquecida nos socializamos com tudo que brilha, uma fé surda na novidade, nas perfumarias; julgando-se céticos e descrentes… “

Descrente? Engano. Não há ninguém mais crédulo que eu. E esta exaltação, quase veneração, com que ouço falar de artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram! Ateu, Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo – uma estrela no céu, algumas mulheres na Terra…”, palavras de Graciliano no final de “Caetés”. Somos nós ainda, caetés.

Marcos Vinícius Almeida, na revista Bula.

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