Quando a inspiração acaba

Os poucos lampejos de criatividade que colorem minha escrita minguaram faz uns três ou quarto meses. Tornei-me menino com fastio. Sento para escrever, mas refugo a comida com sustância. Sirvo pão dormido, redijo sem encanto. Tento, porém, depois de dias e dias sem brilho, o texto sai a fórceps. Acorrentando por dentro e banhado de suor, minha redação vira pedra de Sísifo.

Recuso espremer lição desses momentos áridos. Não quero aprender coisa nenhuma nos meus hiatos. Vou deixar que os lendários quarenta dias no deserto purguem minha vã pretensão de instrumentalizar a vida. Sussurro: “Hei de não aprender coisa alguma na esterilidade”. Infecundo como Ana, não suplicarei filhos. Na vastidão árida dos meus vales interiores, caminharei sem tomar nota dos detalhes interessantes. Satisfeito, não reclamarei a ausência de barulhos. Contento-me em ser banal, em repetir chavões. Sim, repito-me como o sino monótono da igreja de minha infância.

Abro mão da orginalidade. Viver deixou de ser preciso, mas, vago e inexato. Sigo, apenas sigo, ao sabor do vento. Bailo com as marés. Hiberno enquanto aguardo a próxima primavera.

Talvez a felicidade more exatamente nessa desambição melancólica. Despido de expectativas, tudo fica bom. Leve, escrevo sem a ansiedade de agradar. Livre, confundo a sintaxe sem conformar-me a estilo nenhum. Solto, deixo que os dedos desobedeçam a mente, e aceitem ordens do coração.

Meu viver tem essas esquisitices. Acordo afoito, e fantasio produzir uma bela obra literária. Depois, oscilo emocionalmente e a vida se reduz a um existir sem cores. Temendo críticas, prometo que, semelhante a Jesus, só escreverei na areia. Farto com a Agremiação que cobra coerência, abandono as lógicas. Digo que me contento com devaneios.

Talvez meu luto não tenha passado. Neste ano, amigos morreram em cascata. Decepções não deram tréguas. Abandonos se sucederam. Fatigas se acumularam. Sonhos continuaram a desbotar. Negocio com o coração e com as pernas a próxima passada. Dou razão a Fernando Pessoa: “Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada”.

Nesta precariedade existencial, e com esse marasmo criativo, sobra o dever de continuar; de considerar a fidelidade uma virtude inegociável. E dizer: tudo passa, inclusive este tempo.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

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