Cadeira de balanço no lugar do divã

Certos amigos e amigas já usaram esse recurso cênico para explicar uma carência ou pontuar uma tristeza ancestral:

– É que não fui amamentado quando nasci.

Não suporto manha de mercado, muito menos crise infantil na meia-idade. Minha vontade é buscar um litro de leite e derramar num prato de sopa.

– Toma, toma até o fim!

Criança gosta de drama, adulto gosta de transformar o drama em trauma. É sempre uma desculpa lá atrás para fundamentar uma preguiça e esclarecer um vício.

As sutilezas, os detalhes, a normalidade, a rotina são esquecidos. Buscamos somente o estilete no estojo de madeira de nossa infância. Aquilo que corta. Deixamos os lápis coloridos sem nenhum uso. E olha que estavam apontados na última vez que os vi, em novembro de 1984. Psicologizamos em demasiado a memória, a ponto de somente lembrar o que tem impacto. Nossas dores nos tornam reacionários. O verdadeiro revolucionário é o que ultrapassa sua dor e mexe na alegria.

Tanto que não entendo como os terapeutas continuam usando o mesmo mobiliário de Freud: o divã, o abajur, a escrivaninha, a estante com livros. Igualzinho ao escritório do médico austríaco do princípio do século passado. Não há um decorador na psicologia?

Velho por velho, por que não colocar uma cadeira de balanço?

Não troco a cadeira de balanço pelo divã. Com o ritmo e o balanço, falarei bem mais do que deitado.

Cadeira de balanço é feita para amamentação. Minha mãe me acolheu em seu trançado de vime. Guardo até hoje em minha casa. Serviu aos meus filhos, servirá aos meus netos. Adequada para cólicas e para os choros. Deveria ser enquadrada como um brinquedo, constar na praça ao lado do gira-gira e do escorregador. Tem um andamento precioso de charrete. Criança não dorme mais fácil no carro? Cadeira de balanço é movimento enternecido, um pedalinho dos ventos.

Mas voltando ao início: o que me irrita na lamúria de quem não foi amamentado é que ninguém evoca a mãe.

A mãe é apagada dos problemas. Desculpa, a mãe torna-se o problema. É ela é que não amamentou. Parece que fez de propósito, careceu de vontade, de ânimo, de persistência.
Nas campanhas de saúde e prevenção, escuta-se a obrigatoriedade de dar o leite para seu filho.

É claro que toda mãe quer. Algumas não podem.

E quem pensa nelas? São menos mães?

A maternidade sofre nos meses iniciais em seguida ao parto. Recebe nas costas uma pressão social maior do que o casamento e o baile de debutantes juntos. Depois de superar a apreensão se a criança nascerá bem, arca com a ansiedade do primeiro aleitamento. Subirá leite? Terá condições de alimentar o bebê? Ela é normal?

Ao fracassar, é como se a criança a recusasse. Uma frustração seca. Sem raízes.

Na falta de leite materno, ofereça o colo para sua mãe. É ela que precisa.

Fabrício Carpinejar
arte: Maurice Dennis

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