Medos e dragões

Ilustração de Renato Alarcão – Niterói – RJ
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Para quem não se lembra, “dragões ou dragos (do grego drákon, i.e., ‘grande serpente’) são criaturas presentes na mitologia de diversos povos e civilizações, representados como animais de grandes dimensões, semelhantes a imensos lagartos ou serpentes com asas, plumas, poderes mágicos ou hálito de fogo.

A variedade de dragões existentes em histórias é enorme e presente no folclore de povos tão distantes como chineses ou europeus. Assim, em cada cultura os dragões assumem função e simbologia diferentes, podendo ser fontes sobrenaturais de sabedoria e força, ou simplesmente feras destruidoras.”

Sofia, ainda muito pequena, em torno de 3 ou 4 anos de idade, adorava desenhar dragões. Eram vermelhos, cinzentos, amarelos ou coloridos. Às vezes sorridentes, às vezes sérios, assustadores. Em paisagens com sóis e luas, nuvens e montanhas, ou apenas sobrevoando cidades, ou ainda escondidos atrás dos castelos. Papéis cheios de figuras reptilianas se multiplicavam espalhados pela casa e encaminhados para os tios, avós e amiguinhos.

Vovó não se conformava. Por que a netinha de bochechas rosadas e cabelos encaracolados simplesmente não desenhava bonecas e florzinhas como qualquer garota de 4 anos? Teria sofrido alguma espécie de influência subliminar? Deveria ser encaminhada a psicóloga de crianças? Vovó achava tudo isso muito estranho e um dia não resistiu: perguntou diretamente a desenhista o ‘porquê de tantos dragões’.

Com o sorriso mais tranquilizador do mundo,Sofia respondeu:

“- Vovó, eu desenho dragões para não precisar sonhar com eles. Assim eles não conseguem entrar nos meus sonhos! “

Pensei e ainda penso naquela resposta. Sofia decidiu enfrentar seus medos desenhando-os, pintando-os, levando-os para as mais diferentes paisagens e situações. Mudava as expressões dos monstros da forma que imaginasse. Colocava e tirava asas, soltava-os e também os prendia, aumentava e diminuía seus tamanhos.

Assim, aprendeu a domá-los, monstros e répteis, até transformá-los em figuras inofensivas . Tornou-os tão familiares e caricaturescos que haviam perdido seu poder de amedrontar . Agora não podiam mais entrar em seus sonhos.

Não se trata de receita ou fórmula mágica. Angústias e apreensões fazem parte da nossa existência e humanidade. Assim como os velhos receios se dissolvem, novos aparecerão na juventude, na maturidade e na velhice.

A questão é o que vamos fazer com nossos medos e dragões.Vamos encará-los ou permanecer submersos em pesadelos. Talvez precisemos brincar mais com nossos receios e monstros. Talvez gastemos muito papel, canetas, conversas e tempo para redesenhá-los.Vamos renomeá-los, tirar suas asas e seus hálitos de fogo.

Nem se trata de coragem. Precisamos deixar o orgulho de lado, feito criança pequena, e começar a partilhar alguns segredos e receios aos amigos e pessoas que nos amam de verdade. Porque o amor – o amor genuíno – embora não seja varinha de condão, tem o poder sobrenatural de dissolver o medo.

Experimente.

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