Geisy desnudou a Uniban

Há muito mais a ser observado por debaixo do vestido de Geisy Arruda do que um par de coxas rechonchudas. Ao desfilar, toda faceira, a sua estética de moça de folhinha de oficina mecânica pelos corredores e escadarias da Uniban, ela acabou expondo, mais do que qualquer outra coisa, a indecência do ensino universitário brasileiro.

Sem querer, prestou um favor inestimável a todos os que não suportam mais ver um comércio qualquer ser chamado de universidade. Geisy, rapariga humilde da cidade periférica de Diadema, empregada de um mercadinho, deixava seu salário na Uniban, supondo que aquilo lhe daria o futuro que, em tese, ela planejara. Se não foi um futuro, dá-lhe agora, é verdade, um presente ao gosto da mídia, o que, enfim, se ela souber administrar, pode lhe render alguma coisa. (Aliás, os formidáveis marqueteiros da Uniban bem que poderiam aproveitar a ocasião para criar um anúncio de oportunidade: “Só a Uniban faz você famoso de um dia para o outro”).

Há uma entrevista imperdível do professor Fausto Castilho, fundador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, no caderno “Aliás” do Estadão de domingo, 15 de novembro. Diz ele, a certa altura, quando indagado sobre o “o caso Uniban”: “Olha, começo não reconhecendo pelo mero proprietário de uma firma comercial a apropriação do título de reitor”. Pronto.

Foi uma das únicas abordagens dedicadas ao assunto numa entrevista impecável de uma página inteira. Pôs o dedo na ferida. Universidade, reitor… de repente, banalizou-se tudo nessa verdadeira mina de ouro chamada “titulação”. Esse comércio caro e inútil, que movimenta milhões, engambela milhares, emprega centenas e faz milionários alguns amigos de políticos.

O comportamento arruaceiro e nazistóide dos colegas de Geisy – e o comportamento dela, também, ao ir à aula paramentada de mina de pagode ou mulher-melancia do funk –, demonstra que naquele ambiente não há nada do “laboratório da evolução” que se espera de uma verdadeira universidade. Trata-se, aparentemente, a Uniban, de um agrupamento de indivíduos de recursos parcos, tentando disfarçar sua marginalidade com o lustro de um diploma universitário, financeiramente mais em conta e, operacionalmente, menos sacrificado.

Daí, quem sabe, essa disposição para atitudes, que se supõem improváveis num ambiente civilizado, praticadas a partir de uma total ignorância do significado de uma instituição de ensino. Como disse com precisa e cruel dureza o professor Castilho, diante da insistência do repórter em misturar o assunto universidade com o assunto Uniban: “Isso é fait divers, não tem importância”. Ou seja, aconteceu na Uniban, como poderia ter acontecido no Maracanã ou no Carandiru.

É o mesmo padrão, são circunstâncias similares, não tem nada a ver com ensino universitário. É triste, porque é esse o critério de ensino que recheia as estatísticas do governo Lula e faz a alegria de seus ministros.

O governo crê que o potencial de competitividade do Brasil passa pela diplomação de cada vez mais gente, sem nenhum critério, sem nenhuma qualidade, sem nenhuma fiscalização. No fundo, uma euforia besta: a profissão que mais cresce no Brasil é a de garota de programa universitária.

Aliás, à semelhança de Cuba, para orgulho do comandante Fidel, que, certa vez, teria declarado: “No es que las universitárias cubanas sean putas; en verdad, las putas cubanas es que son universitárias”. Não é fantástico?

Uma bela inversão de valores que acaba justificando tudo para engrossar estatísticas demagógicas. Isso explica porque no Brasil qualquer um gradua, pós-gradua, mestra e doutora. Inclusive, num sistema cinicamente autossustentável. É um negócio muito bom, imbatível.

Agora, vejam que ironia: Lula fica promovendo essa vagabundização do ensino superior, quando deveria estimular muito mais aquilo que ele próprio fez, por necessidade, e que hoje trata como exótico: sua formação técnica, que lhe garantiu o sustento, pelo menos enquanto precisou trabalhar para viver. Profissionalizou-se.

Para os estudantes, meio perdidos, da Uniban, um diploma de curso técnico do Senac, certamente, terá muito mais utilidade no futuro do que o certificado de conclusão da “universidade” que só vão ganhar depois de pagar a última prestação para o dono do negócio.

Stalimir Vieira, no Propaganda & Marketing.

o texto que faltava s/ o caso.

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