Sob a bênção de João

Sua missão de ateu é dar uma segunda chance a quem ficou marcado pela prisão

Vilson tem cor de marajá e dentadura de gente fina. É homem de voz mansa, que incide e reincide no discurso da inocência. Seu erro, diz, foi não saber falar “não”. Aceitou feito cordeiro abrigar na sua chácara um senhor que estaria em dívida com três frequentadores do seu bar. Só foi perceber a cumplicidade no sequestro de um doleiro quando a polícia bateu na chácara e atou suas mãos com a cinta da sua calça. Na TV, Datena anunciava que a casa tinha caído para uma quadrilha de sequestradores de Sorocaba, “tudo bandido do PCC”. Vilson, comerciário havia 15 anos na cidade, pegou esse mesmo tanto de pena para cumprir. Perdeu a família e os amigos, o negócio e o tino. Mas ganhou o amparo de Deus. E um emprego de João.

João tem corpo de peão e barba de corsário. É homem de sotaque goiano, que incide e reincide no discurso da segunda chance. Seu acerto, dizem, foi falar “sim” para a inclusão social. Há quatro anos ele emprega detentos e ex nas duas unidades de sua transportadora, uma em Sorocaba, outra em Uruguaiana. Seus caminhões comem asfalto do Recife ao Peru, carregando volumes que chegam a valer R$ 400 mil. João possui cacife de sequestrável e talvez por esse motivo seja discreto na mídia. Tem mãe, mulher, quatro irmãos e dois filhos. Ateu, perdeu o amparo de Deus porque quis. Mas ganhou uma legião de fiéis, que o chamam de anjo do Senhor.

Nem Vilson nem João haviam se dado conta do projeto Começar de Novo, divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça na TV e no rádio. O slogan do projeto: “Errar é humano. Ajudar quem errou é mais humano ainda”. A missão: sensibilizar órgãos públicos e a sociedade civil para coordenar, no Brasil todo, propostas de trabalho e de cursos de capacitação profissional para presos e egressos do sistema penitenciário. “Não é uma alegoria”, enfatiza o juiz Erivaldo Ribeiro, coordenador da proposta. “Trata-se de um direito do preso ser beneficiado com medidas de integração social.” Erivaldo Ribeiro refere-se ao primeiro artigo da Lei 7.210, de Execução Penal. Para ser literal-literal, está escrito “harmônica” antes de integração, adjetivo ardiloso quando se trata do sistema penitenciário.

Na PII de Sorocaba ou Aparecidinha (por causa do bairro onde fica o presídio), Vilson viu os “colegas” do PCC apanharem feio assim que entraram na unidade. Ali é reduto do CRBC, Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade, rival do Primeiro Comando da Capital. Vilson só teria escapado porque alguém lhe deu crédito de ingenuidade. Mas seu naco de harmonia somente se fortaleceu depois da conversão à palavra de Jesus na Congregação Cristã no Brasil, que tem cultos no presídio, e de sua admissão a atividades da Funap, que oferece “adestramento profissional” a 144 penitenciárias do Estado. Na cela com mais 15 irmãos de fé, ele buscou sublimar a rejeição da mulher. “Ela não segurou o reggae”, diz. Leia +.

Mônica Manir, em O Estado de S.Paulo.

um ateu + cristão que muuuitos crentes… =)

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