Uma vida com propósitos (1)

Pavarini – Em 1999, época do lançamento de seu livro Uma igreja com propósitos, a Saddleback tinha cerca de treze mil membros. O crescimento continuou?

Rick Warren – Somos hoje dezesseis mil. Nos finais de semana o número aumenta, mas em média ficamos nos quinze ou dezesseis mil. Quando temos reuniões especiais, o número aumenta significativamente. Por exemplo, no ano passado, no aniversário de vinte anos da igreja, que coincidiu com as comemorações da Páscoa, chegamos a ter mais de trinta e seis mil pessoas. Tivemos de arranjar um tanque enorme, pois realizamos cinco mil batismos na ocasião. Dirigi sete cultos em um só dia. Mil pessoas aceitaram a Cristo somente naquela data. Nos últimos sete anos, batizamos 7.814 novos cristãos. Então, continuamos a crescer, graças a Deus.

Pavarini – O sr. tem viajado por muitos países e ministrado a muitos pastores. Qual é o assunto mais abordado nos seminários?

Warren – O que mais tenho visto em minhas viagens pelo mundo são pastores desencorajados. Eles necessitam de esperança, porque as lutas são grandes. Têm trabalhado arduamente e muitas das fórmulas que usaram antes para a igreja crescer e se fortificar não apresentam resultados agora. Existem igrejas que usam as mesmas estratégias aplicadas nas décadas de cinqüenta e sessenta. Mas estamos no século 21 agora. Jesus disse: “Você não pode encher um vaso de vinho novo se ele estiver cheio de vinho velho”. Muitas vezes pensamos que a mensagem não deve mudar. Sim, ela precisa mudar. Sei que, segundo a Bíblia, a partir do momento que a mensagem foi dada aos santos, nenhuma palavra dela deve ser alterada, pois seria uma heresia. Penso que o enfoque da mensagem tem de mudar de geração para geração. No Brasil, vocês têm dezessete cidades com mais de um milhão de habitantes e duas megalópoles: São Paulo e Rio de Janeiro. Cerca de 22% da população tem menos de 35 anos. Novas igrejas precisam alcançar a nova geração. As igrejas antigas não vão conquistar essa geração. Precisamos, sim, manter velhos princípios, que nunca devem ser mudados. Mas apresentá-los de forma nova.

Pavarini – No Brasil, parte das igrejas diz estar preocupada com a qualidade de membros e não com a quantidade deles. Qual é a opinião do senhor?

Warren – Existem duas histórias em meu livro que ilustram bem esse caso. Jesus nos mandou ser “pescadores de homens”. Quando um pescador pesca, prefere qualidade ou quantidade? Deseja as duas coisas. Quer pegar o maior número de peixes possível, desejando que sejam os maiores possíveis. Não se deve preferir uma coisa em detrimento da outra. A gente deve querer as duas: qualidade e quantidade. Às vezes, a quantidade produz qualidade. Quanto mais pessoas você tiver na área de louvor, melhor ficará a qualidade das músicas. Na verdade, a qualidade chama a quantidade. Um pastor nunca diria “temos uma igreja qualificada, mas ninguém vem ao nossos cultos!”. Qualidade atrai quantidade. Se essa qualidade for real e duradoura, muitas pessoas vão querer freqüentar uma igreja assim, em que as vidas são transformadas. Em todos os países, o ser humano tem os mesmo anseios. E, se sua igreja apresenta esse poder de mudança por meio de Jesus Cristo, se você lhes apresenta esperança, se lhes dá perdão em vez de culpa, se substitui rancor por paz de espírito, se lhes dá propósito e direção, a vida delas é mudada. E elas encherão sua igreja. Você não precisa ter um supertemplo para crescer. Mas precisa mudar vidas.

Pavarini – O capítulo que fala sobre o poder da música em seu livro é muito importante e deve habitualmente gerar polêmica. Há alguns meses, tivemos um grande festival de música no Rio de Janeiro, o Rock in Rio. Muitas bandas participaram, dentre elas duas cristãs, o que dividiu as opiniões nas igrejas. Como o sr. vê essa questão?

Warren – Primeiro, não há nada tão bom quanto a música cristã, digo, as letras cristãs. Se lhe mostro uma música e não lhe digo a letra, você não é capaz de me dizer se ela o edifica ou não. E Deus usa todos os estilos. Não há um “estilo cristão”, esteja você na África, na Ásia, na América etc. Não há estilo sagrado. Deus usa a variedade, usa diversos estilos. Se você prefere um estilo a outro, isso se dá por causa da sua formação musical e não por causa de sua espiritualidade. Não existe música cristã e sim letras cristãs, e é isso que é sagrado. A música é simplesmente um instrumento. Creio que devemos usar a música cada vez mais para alcançar as pessoas para Cristo. E acho que, para alcançar os jovens no Brasil, é preciso usar instrumentos e ritmos com os quais eles se identifiquem. Não importa o ritmo, o que importa é que a mensagem bíblica seja ouvida. Hoje, no Brasil, as igrejas não tocam as mesmas músicas que a igreja primitiva tocava. Aliás, nem sabemos quais ritmos e instrumentos usavam. O salmo 150 diz: “Cante alto ao Senhor, com instrumentos de cordas, e cornetas e sons retumbantes”. Para mim, isso parece música pop. Devemos tomar cuidado e entender a diferença entre aceitação e aprovação. São duas coisas bem diferentes. Jesus aceitava as pessoas como eram, as amava, mas não aprovava seus pecados.

Pavarini – No mesmo capítulo, o sr. também conta que muitos dos hinos tradicionais cantados hoje nas igrejas e considerados “sagrados” eram canções populares que tiveram suas letras trocadas por Martinho Lutero, John Wesley e outros. Baseado em que o sr. afirma isso?

Warren – Não coloquei nenhuma nota de rodapé no livro, do contrário seria um livro de 700 páginas. Se examinarmos a história da igreja, descobriremos que Martinho Lutero, Wesley e Calvino realmente adaptaram canções de domínio popular e as transformaram em hinos. Calvino chegou até a contratar um compositor secular chamado Theodore Basil para que adaptasse músicas. A rainha da Inglaterra na época ficou tão ofendida com isso, que os chamou de “falsificadores”. O estilo não importa. O que importa é que a música consiga alcançar todos os tipos de pessoas. Você pode ligar o rádio e escutar uma diversidade enorme de ritmos. Assim deve ser a igreja. As comunidades devem manter a mensagem, mas diferir umas das outras em matéria de estilos musicais. Na pesca, usam-se diferentes tipos de isca para peixes de diferentes espécies.

Pavarini – Ainda nesse capítulo do livro, o sr. compara a produção de diferentes estilos de música com as diversas versões existentes da Bíblia. Qual a versão utilizada em Saddleback?

Warren – Na língua inglesa, temos várias traduções modernas, e uso diversas delas. Por exemplo, a Nova Versão Internacional, A Bíblia Viva, a Versão Novo Século. A principal razão disso é que, do grego para o inglês, algumas palavras podem ser traduzidas de diversas formas e posso usá-las conforme a ênfase que quero dar na minha mensagem.

Pavarini – Algumas igrejas brasileiras são criticadas por uma ênfase excessiva ao dinheiro. Como a Saddleback lida com essa questão?

Warren – Os cultos em Saddleback são todos evangelísticos. Não há um culto somente com os membros; há sempre pessoas de fora, visitantes e não-cristãos. Portanto, na hora da oferta, costumamos dizer aos que nos visitam que, se não são membros de nossa igreja, se estão nos visitando somente, que não ofertem. Muitos ficam surpresos e perguntam: “Mas que tipo de igreja é essa que pede para a gente não dar dinheiro?”. Infelizmente, noto que os evangélicos americanos são sempre associados ao dinheiro. Igrejas pedem cada vez mais; chegam a implorar. Muitos não-cristãos pensam que os pastores estão ali somente pelo dinheiro. Por isso, não queremos que pensem isso de nós e dizemos com todas as letras: não nos dê nada, por favor. Os membros da igreja são responsáveis pelo sustento dela. Não espere que um não-cristão oferte em sua igreja. Talvez ele faça isso depois, quando se converter e você o ensinar a alegria de dizimar, não porque a igreja precisa de dinheiro, mas por amor a Cristo. A Bíblia diz “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu….”. Nosso caráter se molda ao de Jesus quando somos generosos. Deus é um presente. Tudo o que tenho em minha vida é um presente. Não consegui nada por mim mesmo. Assim, aprendemos a ser como Jesus. Eu quero ser assim, cada vez mais parecido com Jesus Cristo, cada vez mais generoso. Uma pergunta que todo cristão deve fazer a si mesmo é: “Estou ficando cada vez mais generoso à medida quecresço espiritualmente?”. Quanto mais generosos nos tornamos, mais parecidos ficamos com Cristo. Não digo a meus membros: “Deem, pois precisamos de dinheiro”. Digo a eles: “Deem, pois assim serão mais parecidos com Jesus”.

Pavarini – É importante conhecer como outras igrejas lidam com problemas comuns. Como a Saddleback lida com a gravidez de uma adolescente filha de um dos pastores da igreja?

Warren – O fato de ela, por acaso, ser filha de pastor, não muda nada. Tentamos tratar todas as pessoas como Jesus tratava. E ele disse: “não vim para condenar o mundo. Vim para salvá-lo”. Procuramos dar continuidade ao ministério de Jesus, que não é um ministério de condenação, mas de salvação, que traz pessoas para sua glória e graça. Entretanto, devemos tomar cuidado e entender a diferença entre aceitação e aprovação. São duas coisas bem diferentes. Jesus aceitava as pessoas como eram, as amava, mas não aprovava seus pecados. A mulher adúltera, por exemplo. Ele a aceitou e a amou, mas não achou que o que fazia era bom. Não aprovou o adultério, mas a amou mesmo assim. O único modo de você mudar alguém é amando essa pessoa. Você nunca vai conseguir mudar uma pessoa se a condenar, só se derramar amor sobre ela. Então, procuramos mostrar graça e perdão às pessoas. Mas também há uma diferença entre perdão e confiança. O perdão tem de ser instantâneo. A confiança vem com o tempo. O perdão vem pela graça de Deus; a confiança depende do comportamento do perdoado. Se uma jovem foi traída por seu marido, e ele, depois, se arrependeu, pediu perdão e quis voltar para a casa, ela deve perdoar-lhe, é claro, porque é um mandamento de Cristo. Mas não precisa aceitá-lo de volta ainda, pois precisa aprender a confiar nele de novo. E ele precisa provar que é confiável. A confiança é construída com o tempo, por meio de compromisso e responsabilidade.

Pavarini – E no caso de um líder que comete adultério e se divorcia? Ele continua no ministério?

Warren – A mesma coisa acontece quando um líder peca e cai. A igreja precisa perdoar-lhe de imediato, mas não significa que nada aconteceu. Ele precisa voltar a escalar a montanha do ministério e conquistar confiança. Talvez consiga isso de novo, mas esse processo leva tempo. Quando esse tipo de pecado acontece, cercamos o líder de apoio, compreensão, amor e perdão, mas o afastamos do ministério por um tempo. É preciso fazer isso. A Bíblia diz: “que a misericórdia triunfe sobre a justiça”. Se um pastor trai a esposa, deve ser afastado do ministério. Ele precisa de um tempo com Deus. Se está em um novo relacionamento ou se divorciou, não deve voltar a ministrar enquanto não curar e cuidar de sua vida pessoal. Ele precisa passar um tempo com a família e os filhos, porque a Bíblia diz que, se você não consegue administrar a família, não consegue administrar um ministério. Acho que ele deve parar por um tempo. Não sei quanto tempo, talvez mais de um ano, até que todas as feridas estejam curadas, até que volte a andar com Deus como costumava, que até cuide de sua vida pessoal. Maturidade sempre vem antes de ministério.

Pavarini – Fale algo sobre o livro Poder para ser vitorioso.

Warren – O livro é sobre o fruto do Espírito. E a pergunta que faz é: “Como Deus produz o fruto do Espírito em minha vida?”. Alegria, amor, paz, paciência, benignidade, bondade, mansidão, fé e autocontrole. Esses requisitos são o retrato perfeito de Jesus. Se você tem curiosidade em saber como Jesus era, olhe para essas virtudes. O propósito de Deus para nossa vida é torná-la mais parecida com Cristo. Não é nos dar coisas materiais, nos deixar confortáveis nessa terra, mas nos deixar cada vez mais parecidos com seu filho, Jesus Cristo. Como Deus faz isso? Existem dois meios. Primeiro, pela sua Palavra. Quanto mais se ouve e lê a Bíblia, mais parecidos com Cristo ficamos. O segundo meio de se tornar parecido com Jesus são as circunstâncias. Tribulação, problemas. Portanto, o livro fala de como Deus produz o fruto do Espírito em nossa vida, guiando-nos por situações difíceis. Se você precisa ter mais amor pelas pessoas, Deus vai pôr você no meio de pessoas difíceis de amar. Se precisa de alegria, ele o coloca no meio de muita tristeza. Ele não vai lhe ensinar alegria pondo você no meio da praia de Copacabana. A alegria que vem de dentro dura muito mais. Ele nos ensina alegria por meio da tristeza. Como nos ensina a ter paz? Colocando-nos em situações desesperadoras, sob pressão. Paciência? Não exercito paciência se tenho tudo o que quero na hora que quero. Aprendo a ter paciência somente se tiver de esperar. Deus faz crescer o fruto do Espírito em nós por meio de situações opostas.

Pavarini – Qual foi o maior erro que o sr. cometeu no ministério?

Warren – O maior erro em meu ministério foi ter cometido mais erros que acertos. (risos) Mas é assim que se aprende, arris-cando, tentando. Se algo der errado nesse meio tempo, levante-se e comece tudo de novo. Sem dúvida errei mais que acertei. Mas, no que acertei, pude dividir com muitas pessoas. Os erros do meu começo de ministério foram decorrência da falta de propósitos definidos. Deus tem propósitos para a igreja, mas também tem propósitos que devem ser seguidos em nossa vida. Deus nos colocou na terra por cinco razões: adorá-lo, crescer como Jesus Cristo, servir outras pessoas, ter comunhão com outros cristãos e pregar o evangelho a quem não conhece. Há razões para nossos erros. Por exemplo, se adoro a Deus e não prego o evangelho, não estou em equilíbrio. Se ensino, mas não cresço espiritualmente, também. O segredo é o equilíbrio.

Pavarini – Cite um sonho ainda não concretizado.

Warren – Meu sonho é que Deus levante igrejas com propósitos no Brasil, entre as mais diferentes denominações. Precisamos de batistas com propósitos, presbiterianos com propósitos, assembleianos com propósitos etc. Só assim, nas mais diferentes denominações, comprometidas com o propósito de Deus para elas, é que haverá equilíbrio e saúde nas igrejas. E saúde produz crescimento. Então, meu primeiro sonho é que as igrejas não se baseiem em pessoas nem em programas. Programas especiais vão e vêm. Não se firmem em gran-des construções, mas estejam embasados nos propósitos eternos de Deus. Minha oração é que Deus continue a des-pertar os pastores e líderes para fazer isso nas igrejas.

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