O brasileiro

Deu em todos os jornais: o brasileiro está mais alto e mais gordo. E eu que, infelizmente, fiquei apenas mais gordo, estou sentindo-me diminuído. O compatriota tem 1,70, em média; tenho só 1,69 – todos os dias. Tudo bem, tudo bem, o brasileiro está feliz da vida e não serei eu, o baixinho-nervoso, a estragar sua alegria.

Por que a alegria? Ora, o brasileiro não está só crescendo e engordando, mas comprando carros e casando-se adoidado. Segundo as montadoras, de janeiro a outubro, foram mais de dois milhões e meio de automóveis vendidos. De acordo com o IBGE, no ano passado, houve 959.901 uniões registradas. Sem contar as não registradas, como a minha: posso ser baixinho, nervoso e barrigudo, mas consegui amasiar-me com uma brasileira muito jeitosa, na média da estatura nacional e um pouco abaixo do peso – embora reclame constantemente de umas gorduras localizadas não sei onde, pois nunca vi.

Com sobrepeso e o peito cheio de amores, era bom que o brasileiro cuidasse do coração – e ele cuida. Em 1989 (aquele ano em que o brasileiro cometeu um de seus maiores descalabros, elegendo o Collor), 31% do pessoal era fumante. Hoje, menos de 16% tem que se aglomerar nas calçadas, nos topos dos prédios e estacionamentos, em busca de um pedaço de céu para espraiar suas fumacinhas. Como consequência, o coração do brasileiro enfarta muito menos do que há vinte anos.

Cardiologistas comemoram, mas endocrinologistas desesperam-se: nunca o brasileiro sofreu tanto de problemas relacionados a diabetes. Essa quantidade de biscoito recheado, calabresa acebolada e Fanta Uva com Fandangos uma hora iria dar problema. Era o que dizia a mãe do brasileiro, mas o brasileiro ouve a mãe? Se ouvisse, a gente não tinha demorado tanto tempo para “decolar” – eis o termo do momento.

“Brasil decola”, estava escrito na capa da revista The Economist, com a imagem do Cristo Redentor subindo aos céus, não como da primeira vez, ressurrecto, mas tal qual um foguetão. (Eu, modestamente, sempre achei que aquele Cristo, de braços abertos, preparava era um mergulho na lagoa Rodrigo de Freitas, mas fiquei contente com sua versão supersônica). Com o Redentor nas alturas, nosso destino não será apenas abrasileirar o mundo, como alardeava Darcy Ribeiro, um de nossos mais entusiasmados brasilófilos , mas tropicalizar o Cosmos.

Antes de dominar a lua, contudo, o brasileiro precisa resolver algumas pendências urgentes. Segundo a OMS, dezoito milhões de pessoas ainda não têm esgoto, em nosso país. Enquanto uns decolam, outros têm que agachar-se no fundo do quintal, apoiar-se numa bananeira e fazer a mira num buraco. Complicado. Ainda mais agora, que estamos mais altos e gordos.

Antonio Prata

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