Paraíso da morte: suicídio assistido ou a inebriante perspectiva do repouso

“O desfecho não tem nada de violento, e tampouco de precipitado. O paciente escolhe a hora e estuda o plano muito antes. Mesmo os meios lentos não lhe repugnam. Uma melancolia calma e que é por vezes dolorosa caracteriza os derradeiros instantes. Analisa-se até o fim. É o caso do negociante de que nos fala Falret (Hypocondrie et suicide), que se retira para uma floresta pouco frequentada e que se deixa morrer de fome. Durante a agonia, que se estende por quase três semanas, foi sempre descrevendo o seu estado de espírito em um diário que possuímos ainda hoje. Outro asfixia-se assoprando o carvão que deve acabar por matá-lo e aponta ao mesmo tempo diversas considerações: ‘Não pretendo, escreve, ‘dar exemplo de coragem ou de covardia; quero simplesmente empregar os últimos instantes que tenho de vida a descrever as sensações que se têm quando se está a asfixiar, e a duração dos sofrimentos'(Brierre de Boismont, Du suicide). Outro ainda, antes de se entregar àquilo a que chama ‘a inebriante perspectiva do repouso’, constrói um aparelho complicado destinado a consumar seus dias sem que o sangue se espalhe pelo chão”. (Émile Durkheim, O Suicídio, 1897).

Em texto publicado na Revista Poder, edição 21 , intitulado “Ajude-me a Morrer”(pág. 50), a escritora gaúcha Carol Bensimon, autora de “Pó de Parede” e “Sinuca Embaixo D’ Água”, descreveu um fato no mínimo curioso. Clínicas suíças com consentimento do estado, ou seja, dentro da legislação do país, efetuam o chamado ‘suicídio assistido’. Através do pagamento de uma valor x, na presença de médicos e familiares, homens e mulheres dão fim ao sofrimento cujo peso julgam insuportáveis. Bensimon nos revela também que estrangeiros tem viajado até aquele país no intuito de cometer o ato capital de maneira legalizada. Não vou entrar no mérito da legislação de um país soberano, quero simplesmente indagar o seguinte: o ‘sofrimento insuportável’ é o ethos do ato suicida? Em outras palavras: o ‘sofrimento insuportável’ é razão suficiente para um ato suicida? Ou ainda: pode o sujeito “afirmar-se e aceitar-se a partir de si mesmo?” Leia +.

Marcus Vinícius Almeida, na revista Bula.

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