Livro jorrante

Não há olho humano que tenha penetrado toda a insondável vastidão do livro jorrante, e inexiste coração pulsante que não o tenha desejado. Quem pode produzir um ponto final que dê conta de estancar a paixão com que Werther se entregou a Charlotte e quem achará uma quarta capa que demarque um limite aos sonhos alucinados de Quixote?

É vastamente conhecida a tentação de ignorar a vertigem do livro jorrante, encontrando-lhe um suposto ponto final e encaixotando-lhe entre os farpados arames de um dado sistema. Tudo em nome da segurança, do poder, e quiçá do orgulho.

Por olímpica ironia, as assim chamadas religiões do livro prodigalizam parte considerável de suas forças represando o livro. O primeiro passo é considerar inspirado e digno da sagrada reverência um único livro ou um único conjunto de livros, negando a sacralidade ou inspiração de qualquer palavra, dita ou escrita, que se ache fora deste cânon. Eis o livro que, por aval humano, concentra tudo o que Deus tem a dizer.

Não é o bastante. Impostas as prudentes limitações, o livro insiste em jorrar. Isso faz com que os olhos de um sem-terra descubram neste livro, assistidos pelo titubeante facho de uma lamparina, a urgência e a beleza da justiça, e faz com que um sisudo advogado passe a admirar os lírios do campo.

O segundo passo, dirigido aos leitores, consiste em convencê-los dos perigos que assombram as leituras desgarradas, perpetradas na solidão do quarto, entre os uivos do vento e da memória.

É certo que todo esforço inglório em represar o livro só obtêm vitórias bastante pontuais, embora profundamente destrutivas. Os sonhos de Quixote não cessam de contagiar; a paixão de Werther por Charlotte teima em comover. Caim encontra detratores e patronos.

O livro, caudaloso e eterno, jorra.

Alysson Amorim, no blog Amarelo fosco.

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