Hoje é dia de Maria

Hoje é, no dizer de meus avós, dia grande. Para aqueles que não têm vergonha de se dizer cristãos católicos, é dia da solene celebração da imaculada concepção da Virgem Maria, afastada, desde o útero de sua mãe, da mancha do pecado original; para aqueles que não têm vergonha de assumir alguma religião afro-brasileira, é dia de Iemanjá, rainha do mar, vestida com o mesmo esplendor da Virgem, cheia do mesmo doce mito de pureza festiva. À parte as tentativas aleijadas dos teólogos de afinar o discurso dogmático, sem pé nem cabeça, com proposições científicas; à parte as proposições científicas; e, por fim, à parte as afirmações dogmáticas desvinculadas de qualquer verossimilhança, é a figura de Maria, lindamente imóvel naquela estátua, que me encantava; é ela, de quem, quando pequeno, não queria saber se havia ou não pecado – fosse o que fosse o pecado – mas por cujos olhos brilhantes, por cujas estórias singelas, por cujas canções seresteiras, me apaixonava todos os anos, repetidamente.

A festa da Padroeira é uma marca inapagável para qualquer um que foi criança do interior, quando e onde se pode encantar inocente e lindamente com o brilho dos parques, a demora das novenas, as serestas depois das missas, as cantigas cantadas pelas beatas velhas, os leilões e foguetórios, as rezas apressadas de terços, os algodões-doces, as procissões com devotos descalços, o pavilhão e o pastoril… Por dentro de tudo isso estava a religiosidade sem dogma dos mais empobrecidos e desgarrados sertanejos e sertanejas, tragados pela figura de carnalidade e beleza tremendas contadas na história de uma simples jovenzinha dona-de-casa no interior de um sertão distante que, por ter sido mãe do homem terrível e heróico de quem a todo custo e inutilmente queremos esquecer, deve ter contribuído de alguma forma significativa para a humanidade inapelável daquele deus de pés descalços, mãos ásperas e sorriso largo.

Maria, a mulher sem teologia, igreja, seminário ou missa, foi uma jovenzinha destinada a casar com um homem que não conhecia, mas a quem talvez, pelo zelo, aprendeu amar; não foi uma mala que desceu do céu com a segunda pessoa da Santíssima Trindade dentro, como bem entendeu Alberto Caeiro; foi uma mulher que sentia prazeres e dores, próprios da gente pobre e limitadamente feliz da palestina antiga – ela deve ter sentido o prazer de conceber um filho e a dor de pari-lo; deve ter sonhado namorar com algum jovem bonito, deve ter sentido muita raiva dos soldados romanos que estupraram uma sua amiga; deve ter ensinado ao seu filho pequeno os horrores do império da maldade e o horror dos religiosos poderosos a ele aliados; deve ter chorado amargamente quando seu jovem rebelde saiu de casa; deve ter amaldiçoado Javé quando ele enlouquecera a andar com prostitutas, pescadores, zelotas; deve ter acalentado o orgulho muito feminino quando seu filho providenciou muitos tonéis de vinho para alegrar a festa de casamento de seus amigos; deve ter ficado com ciúme daquela Madalena perto demais do seu menino; deve ter gritado e dilacerado os cabelos ao pé da cruz; deve ter desconfiado do consolo muito óbvio da ressurreição; e só deve ter acreditado nisso naquele dia de Pentecostes, cheio da explosão confusa de subjetividades da qual seu filho lhe falava desde a mocidade como sendo o sonho de Deus que ele havia sonhado; e deve ter morrido lembrando, em delírio, do seu amado José e de seus pequenos filhos, com a lembrança agora especial daquele menino travesso, brincando no terreiro de casa, na aldeiazinha de Nazaré. É essa mulher que vejo de brilho nos olhos, imóvel naquela estátua.

Rondinelly Gomes de Medeiros, no Soda Cáustica.
dica do Paulo Brabo

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