Maria Célia

Maria Célia estava gordinha. Calças apertadas, blusas só as largas e biquíni tamanho G. No último final de semana, maiô. A sua refeição preferida, bife à parmegiana com sorvete do McDonald’s de sobremesa, teria que ser cortada. Ordens do nutricionista.

Maria Célia nunca foi magra e nunca ligou para isso.

Seus apelidos nunca foram magricela, cabo de vassoura ou bambu. Ela também nunca vestiu tecidos colados como cotton ou lycra. Maria Célia gosta de fritas e trufas. De catchup, ela também gosta.

Maria Célia está no terceiro colegial. Na última sexta-feira recebeu um bilhetinho na porta do banheiro feminino. A inspetora do prédio expressou um sorriso tímido e entregou o papel que estava dobrado em quatro vezes.

– Um mocinho pediu para te dar.

Ao abrir o recado, letras cortadas de revista formavam:

– Você é bonita, eu gosto de você.

Maria Célia arregalou os olhos, observou o pátio da escola e sorriu.

Ela era bonita, ele gostava dela. A identidade do admirador era desconhecida, mas Maria Célia já se sentia transformada. Agora, ela queria se gostar ainda mais.

Naquele dia à tarde, Maria Célia pediu a sua mãe para que a levasse a um nutricionista. Segunda-feira ela começaria a dieta. Pão integral pela manhã, beterraba, alface e frango grelhado no almoço.

No entanto, no domingo, horas antes da meia noite ela decidiu se despedir da vida sedentária e da gordurinha em cima do joelho. Isso merecia uma comemoração. Na cozinha, Maria Célia abriu um pacote de bolacha Passatempo recheada, mordeu a primeira e pensou:

– Eu sou bonita.

Clara Vanali é uma das vencedoras do concurso de crônicas do Blônicas e escreve no blog www.blogasclaras.blogspot.com.

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