Jesus sequestrado

Testamento literário

Mary Gordon fala sobre Reading Jesus, livro em que analisa os Evangelhos como romancista

Cheguei a cobrir com a mão o título Reading Jesus (Lendo Jesus). Sentada num metrô, minha risada durante a leitura havia atraído a atenção do passageiro à frente e seu olhar dizia tudo: esta mulher deve ser daquelas que frequentam tele-evangelistas e sacode as mãos para cima depois de deixar parte do salário na caixinha de um espertalhão. Não é à toa que a escritora Mary Gordon suspira quando pergunto qual a reação ao seu 15º livro: “Imagino que algumas pessoas subtraíram cem pontos do meu Q.I.”

A ideia de que Jesus foi sequestrado pelo conservadorismo cristão inspirou Reading Jesus (Random House), obra que Mary Gordon decidiu escrever quando ouviu um exaltado pregador evangélico no rádio, comparando animais bíblicos a homossexuais e divorciados. A descendente de irlandeses, criada numa família católica, encheu-se do Jesus histérico e concluiu que, para enfrentar o reacionarismo travestido de cristianismo, teria de fazer a análise do texto, como recomenda a seus alunos de literatura no Barnard College da Universidade Columbia. Assim, dispôs-se a ler os quatro Evangelhos com o olhar da romancista e da crítica literária.

O resultado reflete não só o estilo da escritora cujo romance de estreia em 1978, Final Payments, trouxe comparações com Jane Austen, mas a coragem de uma nova-iorquina filha dos rebeldes anos 60 de brigar pela fé nos seu termos, deixando bem claro que o Jesus encontrado nos Evangelhos tem, para ela, pouco a ver com “um grupo de caras de bata em Roma”. Para Mary Gordon, não se pode ignorar Jesus “como quem gosta ou não de expressionismo abstrato”. A direita cristã elegeu Bush, lembra, apoiou a guerra no Iraque e sabota toda a agenda social. “Jesus também nos deixou uma orientação ética valiosíssima e radical. É difícil de seguir e pode deixar a gente meio maluca. Mas, não conheço nada melhor.”

A romancista refinada de Final Payments, The Other Side e The Company of Women, cronista da família na cultura católica e memorialista não menos celebrada (The Shadow Man), tem apenas dois livros disponíveis no Brasil, o romance A Boa Fortuna (Bertrand Brasil), de 1999, e a curta biografia de Joana D’Arc (Editora Objetiva). Mary Gordon recebeu o Estado em seu apartamento em um prédio construído em 1909, desses que faz do Upper West Side de Manhattan o endereço inevitável de incontáveis escritores.

Na introdução de Reading Jesus a senhora fala da indignação que sentiu ao ouvir um pregador fundamentalista no rádio. Mas me parece que o seu desafio era duplo: lidar com o fundamentalismo e com o ato da leitura.

Exatamente. O livro foi inicialmente motivado pela minha ansiedade pelo fato de os fundamentalistas terem sequestrado o Evangelho e Jesus, atribuindo-lhe declarações que ele nunca fez. Eles interpretavam o Evangelho de uma forma que me parecia realmente grotesca e obtinham muito sucesso. O que tentei foi perguntar ‘por que têm tanto sucesso?’, em vez de ficar dizendo que eles são horríveis e maus. Eles falavam em termos emocionais, e as emoções que despertavam eram, principalmente, medo e raiva. Mas sei que há um espectro emocional maior e suponho existirem pessoas que queiram uma experiência religiosa com fundo emocional, mas não histérica. Pessoas que não querem excluir a razão nem o intelecto dessa experiência, nem a faculdade analítica, mas que também incorporem a leitura dos textos dos Evangelhos como uma experiência emocional. Quis oferecer uma alternativa aos fundamentalistas. E me dei conta de que eles diziam ser fiéis ao texto. Então deveriam ler – mas eu não conseguia imaginar o que eles estavam lendo. A experiência de leitura deles era muito diferente da minha. Foi quando comecei a questionar a minha experiência de leitura e tive de admitir que nunca havia lido os Evangelhos de ponta a ponta. Eu me dispus a essa tarefa, ou seja, de questionar minha leitura porque era preciso ver o que estava ali, não o que eu fantasiava ser o conteúdo. Como são as palavras? Eu precisava aliviar o peso desse texto.

Seu desafio não coincide com um momento em que a experiência da leitura foi transformada?

Estamos abrindo mão da leitura íntima de textos. Lemos rápido demais, recebemos informação demais. Aquele velho exercício francês “l’explication de texte”, quando você examina algo lentamente, parece ter caído em desuso. Sou pós-moderna o suficiente para saber que não existe uma leitura inocente. Você sempre traz para a leitura a sua vida e seus preconceitos. Mas falo da tentativa de se envolver no esforço de uma leitura transparente, de se remover como obstáculo da melhor maneira possível.

A ideia de escrever o livro está intimamente ligada ao papel do catolicismo na sua formação?

Minhas preocupações têm sido as mesmas desde os 5 anos. Escrevi Reading Jesus como escritora de não-ficção. Pensei que a romancista poderia contribuir com um tipo de leitura. Ao mesmo tempo, eu tinha de aceitar que não se tratava aqui de Os Irmãos Karamazov, nem de Chekhov ou Flaubert. Mesmo quando são histórias, nós nos aproximamos delas ou acreditando que há muito em jogo ou zangados porque nos disseram que há muito em jogo. Ou aterrorizados ou encantados. É um texto muito enraizado numa experiência já vivida, com uma intensidade que nenhum outro texto possui. Então tive de dizer: “Sim, sou escritora de ficção e isto é ficção, mas também não é.” Era como se eu estivesse constantemente procurando o lugar sincero para me colocar.

A senhora estaria reagindo também à onda de publicações defendendo o ateísmo, de autores como Christopher Hitchens, Richard Dawkins e Sam Harris?

Hitchens é a minha bête noire particular. Acho esses escritores, especialmente ele, pouco sofisticados, intelectualmente primitivos. Hitchens é o típico debatedor de Oxford, quer ser do contra e não se importa com a falta de conteúdo, desde que cause furor. Usa o cristianismo como alvo superficial e fácil. Hitchens comporta-se como se nenhum horror houvesse sido cometido por ateus. Só porque Stalin passou por um seminário, não significa que fez o que fez em nome de Deus. Hitler não agiu em nome de Deus. E muito menos Mao. Alegar que a religião é a maior responsável pelo mal do mundo é uma conclusão grosseira – e não tenho paciência para isso. Todo mundo estava gritando. Os fundamentalistas gritavam, Hitchens e Dawkins gritavam. Eu queria oferecer um tom mais suave, meditativo, que compreendesse a dor do texto, o luto, a solenidade, o consolo, palavras que não podem ser berradas.

Fonte: O ESTADÃO

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Jesus sequestrado

Deixe o seu comentário