Papai Noel é foda

Natal inesquecível

Nós tínhamos como cliente um shopping center e no Natal resolvemos apelar para o mais conhecido e eficaz de todos os recursos promocionais: botar um Papai Noel na praça principal, pedidos de presentes, tirando fotos com as crianças.

Desde o começo de dezembro foram contratados uns dez Papais Noéis, que iam se revezar num cenário de trenós, renas e neve de isopor. Tinha também um insuportável Jingle Bell tocado numa caixinha de música, responsável por vários ataques histéricos de vendedores e vendedoras. Um desses vendedores, alucinado, atacou uma rena com um esqui e o outro quebrou o sistema de som a cabeçadas, para se ter uma ideia do mal que a musiquinha pode fazer. Mas isso é detalhe.

Um dia observei que o Papai Noel do horário da tarde escondia nas vestes uma garrafinha de guaraná, que ele ia sorvendo aos poucos, nos intervalos do trabalho. Podia ser água ou guaraná mesmo, pensei, pois eu acredito em Papai Noel. Acontece que o bom velhaco ia ficando cada vez mais vermelho e seus ho-ho-ho mais altos, num claro prenúncio de que o cara enfrentava o inverno na Lapônia com água que rena não bebe.

Eram umas três da tarde quando uma mamãe de microssaia e sem sutiã trouxe um garotinho para fazer os seus pedidos. Achei pouco ortodoxa a saudação do Santa Claus para a pressurosa mãezinha: “Minha filha, que Deus abençoe essa saúde!”. Me pareceu que tinha entendido errado e não tomei uma providência imediata. Foi a grande burrice.

Logo depois o Papai Noel perguntou para um menino se ele já se masturbava. Para um garotão de uns 12 anos, constrangidíssimo com a mãe o tratando como criança, aconselhou a pedir dinheiro para o pai e “ir às putas”. Depois de meia dúzia dessas judiciosas observações, levantou-se avisando à fila que ia “dar uma mijada”.

Foi despedido no ato e em seguida aprontou a maior bagunça já vista num presépio, com direito a palavrões cabeludos, troca de sopapos com seguranças e quebra do quiosque de bijuterias.

As crianças que acompanharam a cena torciam para que a porrada prosseguisse e, por incrível que pareça, apesar do porre e da demissão, Papai Noel não parecia irritado com elas, pois enquanto dava cajadadas e dizia impropérios, de vez em quando olhava para as criancinhas e recitava: “ho-ho-ho-ho Papai Noel é foda!”.

As crianças adoravam, batiam palmas e repetiam em coro: “Papai Noel é foda! Papai Noel é foda!”. Coisa linda. Um Natal inesquecível.

Lula Vieira, no Propaganda & Marketing.

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