Conflito cultural: perder por gol contra?

A História é um palco permanente de conflitos por hegemonia cultural, que se dão, principalmente, em duas frentes: a dos símbolos e a das ideias. Na conjuntura atual, a Igreja Cristã se defronta, por um lado, com o revigoramento e a expansão das Grandes Religiões (principalmente o Islã) e suas cosmovisões, e, por outro lado, com o Secularismo, que pretende varrer todas elas da esfera pública. Estariam as Grandes Religiões e o Secularismo “vencendo”, ou a Igreja Cristã é quem estaria “perdendo” por gol contra?

O Talibã explodiu as grandes estátuas de Buda no Afeganistão, como os portugueses forçaram a mudança arquitetônica das fachadas das casas do nordeste do Brasil, após a expulsão holandesa, “para que ninguém se lembre dos hereges”. Mesquitas são construídas na mais alta colina de cidades africanas (com verba dos petrodólares) de escassa população islâmica, como sinal de presença cultural, como fazem os mórmons em muitos lugares, com seus templos e igrejas sem fiéis, “marcando presença”. Templos cristãos são proibidos de serem construídos na comunista Coreia do Norte ou na islâmica Arábia Saudita, ou são derrubados em espaços bramânicos ou budistas em países asiáticos. A Alemanha e a Suíça já estão adotando restrições à construção de minaretes muito altos nas mesquitas dos seus países.

Enquanto isso os Secularistas, principalmente na Europa Ocidental e na América do Norte, procuram retirar todos os símbolos religiosos dos edifícios estatais ou das praças públicas, proibindo o seu uso no vestuário das pessoas, e, até, qualquer referência ao Natal. Diante da sua chegada ao Brasil, já se perguntou se chegariam ao extremo de implodir o Cristo Redentor, do morro do Corcovado, no Rio de Janeiro.

Enquanto o futuro da hegemonia cultural do mundo vai sendo decidida ao nível dos símbolos, cristãos desinformados e/ou equivocados, ou vão trocando os símbolos cristãos pelos símbolos judaicos, ou, como no caso das chamadas “igrejas emergentes” e as “novas iniciativas”, e outras, com o seu o “informalismo” (forma sofisticada de iconoclastia) vão destruindo os símbolos cristãos pura e simplesmente. As Grandes Religiões e o Secularismo agradecem a esses “inocentes (?) úteis”, que vão ajudando os adversários a ganhar o jogo com gol-contra.

A segunda arena do conflito cultural se dá a nível das ideias. Os polemistas e o apologistas marcaram a História da Igreja em vários capítulos. Agostinho de Hipona lançou mão do platonismo, Tomás de Aquino do aristotelismo, a Teologia da Libertação do marxismo, e evangélicos lúcidos dos instrumentais teóricos das Ciências Humanas. A alienação religiosa da desinformação sistemática ou da “batalha espiritual”, a ausência de vínculos com as raízes culturais locais (folclore, literatura, artes plásticas ou cênicas), das obras de análise histórica, sociológica, antropológica, política, econômica, interpretativas nacionais e regionais, a importação acrítica de leituras e métodos forâneos (com a esterilização/paralisação/dependência do pensamento local) são gols-contra da Igreja em favor dos adversários, mais uma vez.

As formas sofisticadas de iconoclastia, a alienação e a importação cultural são terríveis gols-contra do “time” da Igreja, que, continuando assim, perderá para os adversários, até de terceira divisão.

A afirmação dos símbolos e a criatividade cultural são as respostas urgentes e necessárias para o nosso plantel. E que Deus ilumine as mentes obtusas ou teimosas, para sua maior honra e glória!

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Conflito cultural: perder por gol contra?

Deixe o seu comentário