O ‘místico’ fim de ano

Tem muita gente vestida de branco hoje. Adivinhos, horóscopos, búzios, cartomantes e médiuns são consultados sobre a “sorte” do ano que vem. Passes e banhos de “descarrego” de vários tipos de ervas. Promessas a santos e despachos para orixás, nem se fala (haja encruzilhadas…).

O vazio espiritual parece que se torna agudo nesse dia. A consciência do tempo, no meio da festa da vida, dá um discreto lembrete sobre a finitude e a morte. Afinal, somos todos – já se afirmou – apenas “pré-cadáveres”…

O vazio espiritual anda junto com a fome mística. E alguns vão fundo no misticismo, na superstição e na idolatria. Outros optam pela saída hedonista, se cansando com as compras, enchendo a cara, se empanturrando de comida, jogando conversa fora, ou se dando a exercícios eróticos (lícitos ou ilícitos).

No Rio de Janeiro, sem consultar a interessada, as autoridades transferiram a festa de Iemanjá do dia 31 para o dia 19, para não atrapalhar a moda mais recente da queima de fogos, bela e efêmera. Não deixa de ser uma tentativa de acomodar o místico e o hedonista.

Os evangélicos têm convidado os seus parentes e amigos para o Culto de Vigília, ou, em alguns casos, têm saído para evangelizar na praia e em outros logradouros, apontando para o Senhor e Salvador Jesus Cristo, como aquele que preenche o vazio e dá sentido a existência. Uma limitação evangélica é a predominância nacional das correntes iconoclastas, reduzidos ao discursivo. No lugar da idolatria, verborragia. Enquanto a concorrência das seitas para-protestantes (impropriamente chamadas de neo-pentecostais) vai na direção do sincretismo, ainda por cima cobrando pedágios para tirar os “encostos”.

Nessa hora a arte sacra seria muito bem vinda: o drama, a música, os símbolos da fé, alimentando a adoração, a contemplação, uma relação pessoal afetuosa com o Sagrado, sem falar em uma boa conversa com conteúdo.

É uma pena que essa fome mística seja, para muitos, apenas um surto, algo passageiro, que apenas volta no fim do próximo ano, para os que, então, estiverem vivos.

Que a contemplação do Sagrado alimente a entrada de ano, trazendo a paz do céu para os corações, animando para uma vida com sentido.

“A minha paz vos dou!”.

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano

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