Os indiferentes

Cometemos terrível engano quando acreditamos que a humanidade é parecida conosco. Para o bem ou (quase sempre) para o mal, a média das pessoas não tem nada a ver com a forma como nos relacionamos com o mundo.

Nos grupos em que convivemos é comum trocarmos opiniões sobre a política de relações exteriores da Grécia ou a performance da equipe de pólo da Argentina sem que nossas obrigações profissionais ou gostos pessoais tenham a mais remota proximidade com o governo grego, cavalos ou argentinos.

É a curiosidade inata, desenvolvida até o paroxismo, que nos faz ficar permanentemente atentos ao que se passa ao nosso redor e mesmo no mundo inteiro. Não insinuo, nem seria capaz de uma estupidez tamanha, que sejamos melhores do que as chamadas pessoas comuns, aquelas cuja maior curiosidade se manifeste no ato de diminuir a velocidade no trânsito para observar a agonia do atropelado.

Fico abismado como a maioria das pessoas – diferentemente do que costumamos imaginar – que restringe seus interesses àquilo que lhe parece mais próximo de seu mundo particular. E isso não é privilégio de brasileiros, eu diria que até muito pelo contrário.

Um americano médio, um francês comum pode se revelar tão mal informado com o que acontece fora de pequeno círculo de seus interesses quanto um brasileirinho bancário numa cidade do interior. Mas, mesmo tendo descoberto essa verdade há muito tempo, ainda me surpreendo com a limitação do horizonte de algumas pessoas. Uma vez no interior da Espanha perguntei a dois homens que dormitavam na porta de casa (eram dois em punto de la tarde) se a estrada onde eu estava era a estrada que me levaria à Sória. Um deles, acho que o pai, abriu um pouco mais o olho, pensou, pensou e me disse: “Não sei. O que sei é que vai até a loja do Pepe”.

A loja do Pepe era um posto de gasolina situado a uns cinco quilômetros da aldeiazinha dos dois espanhóis. Para ambos descobrir até onde iria aquela estrada depois da venda do Pepe era um esforço que não valia a pena. Sabiamente eles devem imaginar que nenhum caminho do mundo termina em Sória, e depois de Sória outra estrada, ou a mesma, iria a Madri, e de lá para Segóvia, Lisboa, Paris.

Como nenhum dos dois estava preocupado em ir a nenhuma daquelas cidades, bastava saber que a estrada ia até o tal Pepe e isso é tudo que um homem de bem precisa para tocar a vida. Numa outra ocasião uma funcionária da empresa de minha cunhada, muito bonitinha por sinal, mineirinha vivendo no Rio, me perguntou quais eram as pessoas que estavam na minha casa para jantar.

Dei orgulhosamente os nomes: Zuenir Ventura, Gilsse Campos e Maurício Cabral. E, para ajudar, completei: irmão do Sérgio Cabral. Me deu um sorriso, talvez de piedade por eu ser obrigado a conviver com gente tão desimportante e disse: “Não conheço ninguém”.

Neste fim de ano andei por Minas, terra de minha mulher. Em São João Del Rey resolvi passear no Museu do Trem. Fazia um calor de rachar locomotivas e eu estacionei no que me parecia ser a entrada. Um funcionário da prefeitura, uniformizado, veio cobrar o estacionamento e eu perguntei se a entrada do museu era a grande porta que se abria para a rua. Ele disse que não, que a entrada era do outro lado da estação de trem. Voltei ao carro e dei a volta, para parar numa outra porta e ser abordado por uma mocinha, também uniformizada e também da prefeitura.

Daí perguntei se o museu estaria aberto, já que não havia nenhum movimento. Ela olhou para mim, quase espantada, e disse: “Não sei”. E nada mais disse. Ou seja: o rapaz que trabalhava na rua de trás e a moça que estava na porta da frente não cogitaram em saber se o museu do trem, uma das grandes atrações turísticas de São João Del Rey, estava aberto ou fechado.

Eram umas quatro horas da tarde e eu fiquei pensando que durante todo o dia em nenhum momento eles se questionaram a razão da falta de movimento na rua. Não era problema deles. Aliás, uma pergunta: o prefeito de São João Del Rey sabe que num feriado no fim do ano o Museu do Trem estava fechado porque “era folga dos funcionários”, conforme me explicou uma moça que trabalhava numa loja de roupas instalada dentro do museu, mas com saída para a rua?

É por isso que uma parcela muito significativa do eleitorado não sabe quem é a Dilma Rousseff. É por isso que os Arruda, os Malufs, os Severinos Cavalcantis sobrevivem. Pouca gente dá atenção às suas traquinagens, assim como menos pessoas ainda se lembram do que eles fizeram depois de poucos meses.

Agora, pensando bem: qual é a vantagem de conhecer a política exterior da Grécia ou o resultado do último torneio de pólo na Argentina?

Lula Vieira, no Propaganda & Marketing.

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