O pecado mora ao lado

O Parlamento português aprovou há pouco o casamento gay. Se o presidente Aníbal Cavaco Silva (conservador) não vetar o projeto de lei –e nada indica que o fará– Portugal tornar-se-á o oitavo país do mundo a permitir o, vá lá, enlace matrimonial entre pessoas do mesmo sexo. Os outros sete são Bélgica, Holanda, Espanha, Noruega, Suécia e, fora da Europa, Canadá e África do Sul.

A Igreja Católica, é claro, opõe-se à proposta, bem como a outras iniciativas recentes do governo português, entre elas a descriminalização do aborto.

Como já afirmei diversas vezes neste espaço, o que dois ou mais adultos fazem de comum acordo em matéria de sexo entre quatro paredes é assunto que diz respeito unicamente a eles. E, se a sociedade, por algum motivo, definiu que casais são titulares de uma série de benefícios fiscais e direitos sucessórios e previdenciários, não há por que não estendê-los a parelhas do mesmo sexo. Um cidadão é um cidadão independentemente de seus hábitos sexuais.

Sei que esse não é um raciocínio unânime. Só que para opor-se a ele faz-se necessário invocar um conceito bastante complicado: o pecado. Sua complexidade está no fato de envolver uma série de pressupostos pelo menos discutíveis. É a sempre interessante “Encyclopaedia Catholica”, no verbete “sin” (pecado), que enumera algumas das condições necessárias para a “verdadeira noção bíblico-teológica de pecado”: a existência de um Deus pessoal criador de todas as coisas, a existência de uma lei divina, a existência do livre-arbítrio humano e a existência de uma responsabilidade humana derivada da razão. Considero toda essa discussão apaixonante, mas não compro pelo valor de face nenhum desses quatro fundamentos do pecado.

A ideia de um Deus pessoal criador de todas as coisas não passa, em minha visão, de um delírio relativamente recente da humanidade. A exemplo de alguns cientistas, prefiro descrever o fenômeno religioso como uma predisposição de nossos cérebros para ver fantasmas por todos os lados e para perguntar pelo porquê de tudo. Essa dupla tendência multiplicada por milênios e milênios de existência humana acabou resultando no advento do monoteísmo, que, embora filosoficamente mais instigante do que os politeísmos, tem a desvantagem de promover a intolerância religiosa.

Já a noção de uma lei divina imutável parece-me difícil de conciliar, entre outras coisas, com a própria Bíblia, onde Ele supostamente diz o que espera de nós. São várias as passagens do “bom livro” que nos autorizam ou mesmo mandam fazer coisas que hoje consideraríamos horríveis, inclusive vender nossas filhas como escravas (Êxodo 21:7) e assassinar parentes que abracem outras religiões (Deuteronômio 13:7). Aqui, ou bem temos de reconhecer que a Bíblia é, como todo livro, o retrato de uma época com usos, costumes e moral específicos e circunstanciais, ou que, aos olhos de Deus, não há nada de moralmente errado na escravidão, no comércio de filhas e no terrorismo de inspiração divina. Pessoalmente, fico com a primeira opção.

O livre-arbítrio é sem sombra de dúvida um dos mais estimulantes problemas filosóficos de todos os tempos. Ele reúne numa só trama questões tão cabeludas como a natureza do universo (se ele é ou não determinado), a causalidade e a neurofisiologia dos impulsos nervosos. É desse “blend” que vai emergir (ou não) o homem como um agente moral. Em 2008, escrevi uma coluna específica sobre o assunto. Leia +.

Hélio Schwartsman, na Folha Online.

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