Urnas eletrônicas e votos carro-de-boi

Estava nos Estados Unidos no segundo turno da última eleição presidencial (e escapei de ter que votar em quem não queria…), e meus anfitriões ficaram encantados ao me ver seguindo o processo na internet, e como a apuração foi rápida, que todo o país usa urnas eletrônicas, que temos uma Justiça Eleitoral, que o voto é obrigatório e universal, etc. Ou seja, o mundo se renda ante o pioneirismo tecnológico brasileiro.

Um grande avanço desde o tempo que nem escravos, nem indígenas, nem mulheres, nem pobres, nem não católicos romanos, nem analfabetos tinham esse direito, ou quando o voto era aberto e havia, até, o voto “a rogo”, quando varões brancos e proprietários não dominando a escrita, pediam que alguém votasse com ele ao lado… Mas, essa modernização tecnológica se choca com o primitivo do conteúdo.

Nosso Senado tem tido, periodicamente, um terço dos seus ocupantes na figura dos suplentes, que nunca teve um voto para nada na vida. As eleições proporcionais seguem um modelo não adotado por ninguém, em que, pela fórmula, um mais votado perde a eleição e um menos votado ganha. Não há vínculos entre eleitos e eleitores, e ninguém se lembra em quem votou para as casas legislativas. A força do poder econômico é enorme, e a compra de votos uma rotina, especialmente no interior e na periferia dos centros urbanos. A percentagem de prefeitos sob suspeita de corrupção é enorme. O balcão de negócios nas casas legislativas resulta em uma sucessão de escândalos abafados, e um pacto de impunidade mútua se estabelece entre os que saem e os que entram.

Os partidos não possuem ideologia ou programas para valer. As Medidas Provisórias e o Orçamento Autorizativo esvaziam o Poder Legislativo, que nem legisla, nem fiscaliza. Nas últimas eleições houve uma redução de 30% dos jovens entre 16 e 18 anos que tiraram o seu título de eleitor. O desinteresse e o pessimismo pela Política é uma triste e preocupante realidade nacional.

O Plebiscito, o Referendum e a Iniciativa Popular, consagradas pela nossa atual Constituição Federal é manietada pelo Legislativo. Na Suíça, na França ou nos Estados Unidos, eles são uma rotina, consideradas evidências de uma democracia de primeiro mundo, mas quando os governantes tentam aplicá-las na América Latina, são acusados de “populistas” e de estarem passando por cima ou ameaçando “as instituições” (oligárquicas), porque todos têm medo do povo, e alguns têm raiva dele: “síndrome de Justo Veríssimo”.

Entre o deslumbramento tecnológico do voto eletrônico e a realidade do voto carro-de-boi, a nação vai sendo reduzida a um mercado, os cidadãos em consumidores, e os crentes mais perdidos do que cachorro em caminhão de mudança…

Conhecer-Discernir-Interceder-Intervir!

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.

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