Sexualidade e sanidade

Como as Igrejas evangélicas lidam com o tema da sexualidade?

Eu diria que, na grande maioria, o que temos é silêncio. A sexualidade é um não-tema. Pode-se viver e morrer numa igreja evangélica por 70 anos e nunca ouvir um estudo sobre o assunto. A grande realidade: ainda é um tema-tabu. A minoria que estuda, o faz, em geral, com dois defeitos: primeiro, não leva em conta a contribuição científica e, segundo, 99% dos livros e palestras que estão por aí são de uma linha só, que é a conservadora. A Igreja ainda não aprendeu a ouvir os diversos pontos de vista que foram sendo construídos na teologia. Então, é um quadro gerador de culpas e neuroses: aí estão os psicólogos e psiquiatras seculares para atestar isso. Esse tema representa a última fronteira da teologia e da pastoral, em que, lamentavelmente, seu desenvolvimento vem sendo dificultado. Estamos avançando aos trancos e barrancos na política e na sociedade, e essa é a última fronteira. Sentimos que a reação que ela provoca é mais violenta do que a da própria questão política.

O senhor mencionou falta de saúde na Igreja, quanto a sexualidade. Como se evidencia isso?

Tenho três fontes. A primeira são amigos profissionais da área de psiquiatria e psicologia, que brincam dizendo: “Gosto muito dos evangélicos, porque eles servem para me fornecer clientes”. Algumas pesquisas indicam que, embora o Brasil seja um país de minoria católica, o maior grupo de pessoas em tratamento psiquiátrico é formado por umbandistas, seguidos por evangélicos. A segunda fonte são profissionais evangélicos, psicólogos e psicanalistas, que me têm relatado o drama humano dessa gente. Por fim, vêm as minhas próprias observações, já que viajo pelo Brasil, com trânsito entre os mais distintos grupos evangélicos. Encontro desde a luta para proibir educação física, por causa dos shorts, até a suspensão da comunhão aplicada a mulheres por andar de bicicleta (pode estimular a masturbação feminina). Nessa linha surge uma série de “doutrinas”, como não pode namorar; só pode ler livro de sexualidade se for noivo; pedir a Deus, ao converter-se, que apague sua libido.

Seu livro Libertação e Sexualidade causou muitas reações…

Quando terminei meu trabalho com a Aliança Bíblica Universitária (ABU), depois de 10 anos, perguntei a meus amigos quais eram as três principais lacunas em que tínhamos de trabalhar. Queria fazer uma agenda de meu ministério pessoal para os próximos 10 anos. O pessoal respondeu: política, sexualidade e usos e costumes. Difícil atacar os três de uma vez. Eu seria estraçalhado! Então foi o momento da abertura política, anistia. “Diretas já”, essa coisa todinha, e eu senti que a prioridade histórica era a questão política. Aí saiu Cristianismo e Política, hoje em sua terceira edição, revista, com atualização histórica e bibliográfica, que saiu pela Temática. Assim, deflagrou-se todo um debate que hoje está aí consolidado.

Entramos, então, na segunda linha: a sexualidade. Na verdade foi uma retomada. Eu tinha sido o primeiro autor evangélico brasileiro a escrever um livro sobre o tema. Lancei Uma bênção chamada sexo em 1970 (hoje na 8ª. Edição) por um desafio dos estudantes da ABU, que reclamavam da ausência de literatura nessa área. Percebemos na ocasião que, por não haver outros livros, as pessoas tinham muitas dúvidas e, por isso, eram mais liberais. Depois houve uma obra traduzida pelo Jaime Kemp, do fundamentalismo.

A grande constatação é que a geração leitora dos anos 90 é mais conservadora do que a dos anos 70. Foi exposta a uma linha só. E embora eu não diga em Libertação e Sexualidade muita coisa além do que disse no primeiro livro, a reação foi muito maior. O que nós propúnhamos no livro: a) reabrir a discussão; b) mostrar que a posição conservadora, que é hegemônica, não é a única na história da igreja (daí o livro ser muito mais baseado numa farta bibliografia, num compartilhar de outras posições). Isso para que a Igreja, se hoje é mais madura para discutir formas de batismo, liturgia etc., tenha também maturidade para discussão sobre sexualidade; c) fazer um estudo interdisciplinar, usando antropologia, teologia e psicanálise.

O livro tem sido reeditado e muito vendido, apesar das reações contrárias de instituições e lideranças. No entanto, além de conversas, tenho recebido cartas e telefonemas de gente que tem sido muito abençoada com a sua leitura. É o que me estimula a prosseguir. Na verdade, agora me preparo para entrar na terceira fase da polêmica: o livro sobre usos e costumes.

Que tipo de bênçãos a leitura do livro tem provocado?

As pessoas se sentiram enriquecidas, tiveram outra ótica, questionaram certas coisas. É o caso, por exemplo, no meio pentecostal, dessa teoria do “apagamento erótico”, defendida pela Valnice Milhomens, pela qual, ao se converter, o crente – solteiro ou viúvo – pede a Deus que desligue a sua libido, para só ligá-la de novo quando se casar. Isso tem gerado muitas neuroses, e o livro mostra outra ótica. Há um alívio de culpas, uma visão mais compreensiva das coisas. Vale citar este testemunho de um pastor: “Eu era radicalmente contrário ao divórcio. Queria varrer da minha igreja os divorciados e nunca mais abrir as portas para eles. Hoje, meu braço direito é uma senhora divorciada, e o ex-marido dela, tesoureiro da igreja. São uns pilares. E mais: eu não teria essa abertura se não tivesse lido o livro”. Há ainda a história de uma senhora católica, professora, que recebeu educação em colégio de freiras e de família tradicional, com bloqueios, medos, preconceitos, que a levaram à frigidez: de repente, o livro fez com que ela reconciliasse sua teologia com sua sexualidade e, em consequencia, se sentisse realizada. Depoimentos como esses me trazem compensações e ocasionais caras feias de líderes evangélicos.

Robinson Cavalcanti, em A Igreja, o País e o Mundo (Editora Ultimato, 2000).

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