As ideologias não desaparecem

Uma das frases mais fortemente ideológicas que tem sido dita nos anos recentes é: “As ideologias desapareceram; o que precisamos é de decisões técnicas”. As ideologias são leituras da realidade e propostas de inserção na realidade, e, como tal elas são inerentes e inevitáveis. Uma ideologia “a” ou “b” pode reduzir sua importância, ou até desaparecer, mas elas serão substituídas por outras, e a ideologia como fenômeno em si é um dado sociológico, psicossocial e político perene.

As “decisões técnicas” não são neutras, nem existem desvinculadas de ideologias. As ideologias, como fenômenos coletivos, expressam cultura, contexto, interesses nacionais, de classe, de raça, de religião, e necessidades, e um componente individual a-sistemático ou sistemático.

Karl Mannheim, em texto clássico, denomina de ideologia os sistemas de pensamento que justificam uma ordem estabelecida ou sistema, e de utopia os sistemas de pensamento que questionam uma ordem estabelecida e propõe uma alternativa. Desse modo, o marxismo era uma ideologia para o regime soviético, e uma utopia no mundo capitalista, enquanto o liberal-capitalista seria uma ideologia para o Ocidente e uma utopia para o mundo soviético. A ironia é que o marxismo se considerava como única ideologia verdadeira e final, e que quando chegássemos à sociedade comunista (depois de ultrapassarmos as fases capitalista e socialista) estaríamos em um modelo síntese final, e que a humanidade não criaria mais nada em seu lugar.

Para “dar uma mãozinha” nessa “marcha inexorável da História” fez propaganda, censurou e reprimiu. O muro de Berlim caiu, o regime soviético desmoronou, e a ideologia marxista entrou em declínio.

E, qual é o dado novo em nossos tempos? A ideologia liberal-capitalista passa a usar postulados formais dos seus adversários marxistas. Para eles, chegamos ao “fim da Historia” (Fukuyama) com sua ideologia como única, verdadeira e final. E a propaganda, a censura e a repressão também “dão uma mãozinha” na sua implementação.

Enfim, outro “pensamento único” e outra “marcha inexorável” da História (História fechada, determinismo).

Uma ideologia é implementada pelos aparelhos ideológicos (escola, mídia, arte, religião) que se traduz em legitimidade quando os excluídos e menos favorecidos “leem” a realidade pelos óculos dos privilegiados, como se seus fossem, contrariando os seus próprios interesses. E para quem não a internaliza entram o ostracismo, o exílio, a prisão.

Os cristãos evangélicos brasileiros, em um ano de eleições gerais, quando são chamados ao exercício responsável da cidadania, como forma de testemunho e expressão de santidade, como “sal da terra e luz do mundo” devem substituir a alienação pela conscientização, antes da ação, abrindo os olhos, caindo na real quanto ao estado de imersão ideológicas em que se encontram, e como in-conformados servos da Providência, colaborar para reabrir a História que tem um Senhor.

Nem o ingênuo otimismo do liberalismo teológico e da escatologia pós-milenista, nem o pessimismo irresponsável do fundamentalismo teológico e do pré-milenismo, mas o realismo responsável do evangelicalismo teológico e do a-milenismo.

“Crer é também pensar”.

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.

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