Arrependimento – Além dos pecados individuais

Encerramos o “intervalo lúdico” brasileiro, que começou no Natal e terminou no Carnaval, começou com a fé cristã e terminou com a festa pagã, a revelar as contradições de uma cultura sem síntese e com sincretismo, em que a racionalidade moderna, as marcas do Cristianismo, o esoterismo, a superstição e a idolatria convivem com o bacanal (culto a Baco) de calendário.

Agora, depois do descanso de uns e dos excessos de outros, finalmente começamos o “Ano Brasileiro”. Para as Igrejas Históricas, encerramos a Quadra da Epifania, com a ênfase em um Messias que não veio apenas para Israel, e, sim, para as nações, e iniciamos a Quadra da Quaresma, centrada na vida, obra vicária e ressurreição de Jesus Cristo, na nossa consciência como pecadores, em um olhar sincero para o interior do nosso ser, e uma reafirmação das grandes verdades da fé.

Jesus foi para o deserto, para ser tentado, e saiu vencedor contra satanás, prefigurando os nossos desertos, as nossas lutas espirituais e as nossas vitórias. Temos, porém, de evitar o individualismo da perspectiva da cultura ocidental contemporânea, em que, por decorrência, a consciência de pecado se esgota nos pecados individuais de cada um, e recuperar o ensino bíblico do pecado coletivo, social, institucional: famílias, tribos, cidades, nações, também pecam como coletividades, e o ministério profético aponta também para os pecados coletivos e chama essas coletividades ao arrependimento.

Lamentamos que o ministério profético tem-se enfraquecido na missão da Igreja, em virtude das propostas de missão semi-integral importadas da América do Norte, onde o profetismo é rejeitado ideologicamente ou associado com uma conduta antipatriótica diante da idolatria nacional.

O mundo está pecando, as nações estão pecando, nossa nação está pecando. Teremos a coragem para exercer o ministério profético diante dos poderes e dos poderosos, chamando os pecados pelo nome e chamando os poderes e os poderosos ao arrependimento? Com que autoridade moral cumpriremos esse mandado do Senhor, se não tomamos consciência do pecado do divisionismo, dos cismas, das heresias, ou com os mesmos somos indulgentes ou fatalistas? Seremos capazes de assumir os pecados coletivos da Igreja, clamarmos por um arrependimento e por mudança?

Se ficarmos apenas nos pecados e no arrependimento individual estaremos sendo desobedientes, parcializando o conteúdo e a amplitude da nossa mensagem, e, no fundo, contribuindo para a permanência do mal.

Vivamos a Quaresma na leitura da Bíblia, na devoção pessoal, nos ritos da Igreja e no clamor profético diante do pecado da injustiça, da violência, da exploração, da desonestidade, da idolatria e da imoralidade do século e da pátria terrena. E no acerto de contas com a verdade, com a realidade do dilacerar do Corpo Místico de Cristo e com o ministério do filho do pai da mentira.

Quaresma é um novo tempo, e um tempo diferente. Que o espírito desse tempo faça uma diferença em nós e por meio de nós. Da Quarta-feira de Cinzas (com Cinzas) ao Domingo da Ressurreição, encetemos uma profunda peregrinação existencial nos mistérios da fé.

Que Ele abençoe a todos!

Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.

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