Faz tanto tempo

Feriado. Acordo a hora que bem quero, não há obrigações. Restabeleço uma lenta rotina do ócio, desta vez sem culpas. Instituo novas leis: comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, caminhadas preguiçosas e a aposentadoria temporária do relógio.

Faz tanto tempo que não tenho um feriado assim, caseiro, longe das estradas e do zumbido incessante do motor do carro. Redescubro outros sons: pássaros cantores das árvores próximas, o badalar dos sinos da igreja vizinha, pingos d’água do ar condicionado de algum andar acima do meu batendo na varandinha, o estalo das madeiras da casa durante a noite.Redescubro sensações de infância: o lençol cheiroso roçando na pele, o chão frio sob os pés descalços e a suprema transgressão: não pentear os cabelos em nenhum momento do dia.

Não “tenho que …” nenhum. Em casa tudo pára: até o tempo suspende, já não sei mais se hoje é Domingo ou Terça. Mas que importa?

Displicentemente mexo nas pilhas de livros, Cds e um monte de coisinhas acumuladas que não ousam reclamar atenção. Não me dedicarei a nenhuma tarefa hercúlea, embora me permita fazer um bom café, uma pequena gostosura ou a leitura de uma crônica ou poema.

Chego a confessar ao meu amor que estou excessivamente dorminhoca, mas ele me defende – ah, só quem ama pode defender assim! – argumentando que normalmente eu trabalho tanto e tão intensamente que é completamente natural que eu me sinta ao mesmo tempo feliz e deslocada nessa malemolência de verão.

Ainda tenho muito o que aprender sobre o descanso. Até o ócio requer disciplina.A mente, acostumada com pensamentos simultâneos e taxímetros diários, precisa se aquietar aos poucos, desacelerando as velocidades imaginárias.

Olho para mim mesma e me redescubro mais calma e lenta, mais feliz, mais grata à vida.Como diz a Nélida -”Tenho a consciência porosa, a emoção inadvertida”. Lembro da narrativa do Genesis e de que Deus- Elohim também descansou dos seus trabalhos. E achou tudo muito bom.

Cantarolo sem motivo: lá fora o mundo gira sem mim! Não preciso de milhagens acumuladas ou souvenirs caros para provar a mim mesma o tamanho do meu descansar.

Descubro afinal a chave do mistério das clausuras, de onde alguém disse ser possível a alegria e o silêncio bailarem abraçados, sem nenhuma contradição. Descubro uma preciosidade esquecida faz tanto tempo: daqui mesmo, de dentro de casa, posso e devo celebrar a vida circunscrita a quatro paredes.

Helena Beatriz Pacitti, no Timilique!

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